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sexta-feira, janeiro 30

Hóspede da semana :: Trelles

O hóspede da semana no blog da TRUPE é Trelles, apelido de André Telles do Rosário.
Escritor e tradutor, publicou dois livros de poemas, PSICONÁUTICA, em 2006; e VOU-ME EMBORA PRA SOROCABA!, em 2007. Também participou dos recitais itinerantes de poesia CHÁ DAS CINCO e OUTRAS PARADAS, acompanhando poetas como Miró, França, Valmir Jordão, Malungo, Lara, Cida Pedrosa e Fernando Chile. É mestre e doutorando em Letras pela UFPE.
Os poemas a seguir são de seus livros.

Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!


Difusão


Conseguir te fazer sorrir

é como conseguir

meio beijo teu


Com dois sorrisos

a gente se beija


E beija a cidade inteira,

se conseguir fazer sorrir

pessoas terceiras

com o beijo que a gente

deu



CosmoGrill

O Amor limpa o lixo espacial
das galáxias ao redor.

O Amor cola os cacos
da grande explosão.

O Amor torna nítido
o caminho entre as nebulosas.

O Amor me projeta
no desideral espaço.

E por defeitos na asa esquerda,
o Amor me carboniza na reentrada.



Folia


Desde as dez da matina
até o fim do dia
na folia

Embaixo do Sol cruel
de fevereiro,
rasgando o caminho
através da multidão insana
e da sujeira,
desviando de beijos
forçados
pelos becos
mijados,
subindo e descendo
ladeira,
comendo e bebendo
porcaria
(sem uma gota d’água
na torneira):

Oh linda situação
pra se viver numa vila!



Maturação


Pássaro verde quando

cai

do pé-de-pássaros,

ou aprende

a voar,

ou perde

sua utilidade musical



Flagrante

Borboletas e flores

no jardim do fórum:

pelo menos isso



Vou-me embora pra Sorocaba


Vou-me embora pra Sorocaba
Lá sou filhinho de papai
Lá tenho o emprego que quero
Na empresa que escolherei
Vou-me embora pra Sorocaba

Vou-me embora pra Sorocaba
Aqui não consigo ser careta
Aqui a existência é uma doidura
De tal modo inconsequente
Que já beijei metade da metade
Das mulheres da cidade
E ainda não foi suficiente
Pra encontrar a tal figura

Lá casarei com uma modelo
Bonita e inteligente
E simples e leve de pensamento
Como eram minhas certezas da infância
E teremos filhos, cães, carros na garagem
Casa própria com jardim, e dinheiro
Pra torrar em brinquedos e viagens
Vou-me embora pra Sorocaba

E quando eu estiver mais triste
Morrendo de saudades de Recife
Da vida que tive, dos beijos
E das baladas que deixei pra trás
- Lá serei um homem ocupado -
Vou me deter num suspiro prolongado
E voltar ao trabalho, pra esquecer
(Porque já terei largado o baseado)
Vou-me embora pra Sorocaba



Para conhecer mais os trabalhos de Trelles, visitem:
http://www.apartamento902.blogspot.com/

Por um Barack pertinho

Gente, lendo o que o Saramago escreveu sobre o Obama eu fiquei pensando se não é, ou seria, algo espetacular um sujeito assim existir. Um líder com um discurso ético, cheio daqueles bons valores que estão em falta na civilização, principalmente no aparte que é a civilização política. Imaginem as mudanças que alguém como ele pode fazer... Imaginam? Tá difícil? Ou realmente sou uma infeliz pensando neste “herói” (lembrando de Brecht) ou posso ter fé, deixando a inércia e a indiferença nas questões políticas de lado, em encontrá-lo por estas bandas, por nossas praças, por entre nós, em nós.

Não sei, espero que este post não se torne em breve arcaico. Penso que a ocasião é boa para o, não sem ato, desejar...

Boa sorte para nós!


Até!


Viviane Bezerra



Donde?

José Saramago

Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.

Fonte: http://caderno.josesaramago.org/

quinta-feira, janeiro 22

Hóspede da semana :: Luciano Pontes

A Trupe hospeda por uma semana aqui no blog o artista Luciano Pontes, divulgando o seu conto O GIGANTE DO JARDIM.
Luciano é ator, palhaço, cenógrafo, figurinista, escritor. Tem formação livre em teatro e dança. Estudou desenho e pintura na UFPE e participou de vários espetáculos de dança e teatro em Recife. Cria também projetos de cenografia e figurinos para teatro. Atualmente integra o elenco de atores palhaços do programa Doutores da Alegria Recife. É autor dos livros O Carrossel do Tempo, Ouvindo as Conchas do Mar e Uma história sem Pé nem Cabeça publicados pela editora Paulinas. E Em Briga de Irmãos quem dá Opinião? Pela Editora FTD.

Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!

O Gigante do Jardim

Para Allan Cravo

Há um gigante no jardim mãe, ele dorme! Olha pai! Parece sonhar. Com que será que sonham os gigantes? O menino pensou sem falar. Passou o dia de olho na janela e a cidade nem parecia notar aquela presença gigantesca ali.
Mãe, ele deve sentir frio quando o sereno chega, será?! Num sei meu filho, tenho coisa melhor pra pensar! Mas tem um gigante no quintal. Isso passa meu filho, isso passa. Faz de conta que ele não está.
O menino pensava e não parava quieto, juntou um pouco de coragem e foi ao quintal e forrou com folhas secas ao redor do corpo do gigante. Ele parecia sorrir, depois o menino voltou correndo num pé só. Dia após dias ele observava da janela e o gigante parecia diminuir. Então o menino procurou ajuda nos livros antigos do seu avô, em vão! Queria entender, saber por que, eram tantas interrogações, tantas exclamações que os livros não sabiam responder.
Deve se sentir só um gigante!? Pensou o menino sem falar e passou a ficar ao seu lado mesmo um pouco assustado. Olhava acanhado por debaixo da testa e voltava correndo o rosto com pressa. Da primeira vez o silêncio fazia música. O que falar pra um gigante? Da segunda vez levou o álbum de fotos da família e contava das pessoas e coisas. Da terceira vez, falou do seu dia na escola... O menino se apegava mais e mais ao gigante, ele já não parecia tão grande assim. Até que um dia, depois de podar as flores que cresciam ao redor do gigante foi dormir e um duende verde de cachinhos dourados lhe apareceu em sonho.
Agora ele vai ter que ir, não chore! Não tem por que. O gigante caiu da cama no céu e sonâmbulo sonha. Depois de muito andar encontramos ele aqui, os gigantes tem que ser gigantes, não podem diminuir. Por tanto cuidado faremos um trato, tudo não passará de um sonho, mas não se aprece um dia será recompensado.
Noutro dia o menino parecia sentir falta de alguma coisa, e passava de quarto a quarto, de sala em sala numa agonia só. Continuava olhar pela janela e o tempo parecia brincar sem cumprir as obrigações. Foi até ao quintal e brincando entre as formigas achou uma chave, retirou com cuidado e colocou no bolso. À noitinha o sono bateu cedo e deitou antes mesmo que o sol fosse embora, sua mãe estranhou. Deitou-se e cobriu com frio até o peito, era tanto sono que antes mesmo de deitar já dormia e sonhando uma porta apareceu. Achou esquisito, a porta era menor que ele, parecia casinha de rato, mas a chave parecia do tamanho certo. Esfregou o olho embaçado e enfiou a chave na portinha e um facho de luz invadiu e se expandiram pelos cantos todos do quarto. Enfiou primeiro o dedo e depois a mão foi entrando e sem muito enforco tudo parecia encaixar. Por fim, estava do outro lado, mundo claro, e tudo parecia menor que ele, um gigante se sentia. Deu o primeiro passo e o perigo de esmagar algo, formiga fora formigueiro, flor desabrochada, fruta esparramada... Ousou pular e ganhou os ares, era leve voar e longe, de cima, via o mundo abaixo. Percebeu que gigante também era, aquilo não parecia sonho, o menino não pesava e em sonho voava. Dizem que foi assim, sem tantas explicações que até hoje a cama de seu quarto encontra-se forrada á espera de sua volta. Dizem também que se encontram no mundo gigantes de vários tamanhos e cabe nós vê-los por cima até achá-los.
Luciano Pontes
Para conhecer mais o trabalho de Luciano Pontes visitem:

sexta-feira, janeiro 16

Hóspede da semana :: Álisson da Hora

A TRUPE hospeda, divulgando alguns de seus poemas por uma semana aqui no blog, Álisson da Hora.
Álisson, mestrando em Teoria da Literatura (UFPE), tem 31 anos, também é tradutor, além de trabalhar como professor. Tem dois romances não publicados, Quinto Sentido e Arabela e sempre rabisca poemas no seu blog (o endereço segue no final da postagem).

Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!


Ascender
não te escondas
mas, precisando se esconder
te farei de pipa
para que ninguém te perturbe no seu voar

prometo: ninguém perceberá teus passos
tranqüilos nas quinas das nuvens
nem teu olhar divagante por sobre
as cabeças dos pequenos necessitados
da misericórdia mais pungente.
te guardarei nos meus bolsos
para lembrar como quem olha uma fotografia querida
te trarei como uma promessa de viagem
um devaneio ao final da tarde mais calada.

se esconda
embaixo dos meus poucos versos
o abrigo mais bonito que eu posso te dar
com um sopro de sol se pondo
o afago amigo das linhas pensadas

refugie-se no campo sensato da tua alma
no que podes pensar de bom ao final de um dia
deixe-se fotografar pelas minhas mãos
e fique tranqüila

aqui, estarás segura


Casanova e Henriette
a memória é uma espada ensangüentada
- adeus -

a felicidade dura, durará?
Tem de durar?

Pode?
Não sei.

Nunca se sabe.

os adeuses brilham nos bicos
de insones pombos
sob o sol de Parma

em todos os vidros de Genebra
riscados em diamantes
nas janelas

- tu esquecerás, também -

Esqueça-me é fácil de dizer.

a dor só aumenta à medida em que
após sete semanas
sete anos
esquecer é impossível
e é impossível querer esquecer

Adeus


No silenciar
o machado em mãos, há quem pense que se distribui flores

as quinas do quarto apontam para o centro dele: a saída fechada
a janela entreaberta, a lua que mingua, o calor que arrefece

o machado em mãos, mas há quem pense que há flores

as músicas que tocam nas extremidades, o cheiro
de vinte mil pensamentos dissipados, as estrelas
e a lâmpada, sempre a esvanecer-se antes das onze

as flores em mãos, o olhar janelas, o café

e o entorpecente noturno, notívago, lunar
amestrando todas as sensações derramadas
as fotos vitimadas, o conhecer
enfiados nas mandíbulas de cachorros raivosos

o machado em mãos, derrotando as flores

as nuvens sobre as cobertas, encobrindo o céu
as pulsações de oitenta batimentos, pelos lençóis,
dedos, o sorriso que se vai na noite insone
num pedaço de pesadelo selvagem
arrastados pelo sonhar acordado, a viagem
tremenda de viver e acordar

o machado em meio ao silêncio

as flores que sobrevivem ao suor da madrugada


Bandeiriana
ser vivida...

as perturbadas voltas do relógio
quem sabe, sejam para serem esquecidas
esquecer. esquecer.esquecer tudo.

geralmente as almas não se entendem:
nem se quisessem.

impossível descanso = não há como descansar
a cabeça cai do travesseiro
as pernas escorregam pelas quinas da cama
da felicidade
o único resquício:
retraços de músicas escancaradas ao som da manhã

acordei. manhã escura. era tarde:
mas não chovia
aqui não chove.
mas em mim ainda persistia uma absoluta capacidade
absurda de resignação.

o café quente e doce
eu mesmo fiz

levantar. deitar. pensar
pela janela
todos os dias
um avião perdido
me castiga:

as lições de partir jamais aprendidas
o desgaste da permanência

é da vida.

quando hoje acordei
me dei conta de que me era impossível repetir
tudo. até o pouco. teu verso embandeirado
nem humilde
pensamento nenhum meu o foi
os aviões continuaram me dando lições de ir embora
esquecer. esquecer. esquecer tudo.
nenhuma frase me traria
de volta as asas se partem na primeira nuvem
que encontram. qualquer mulher
que eu amasse
supostamente.
ali se perde. nem paraíso terrestre. nem celeste
nada.

enquanto isso
a vida espera...


Antologia
Em meio a tanto tumulto
nenhum coração é poupado;
talvez exista uma praça bagunçada que desconhecemos
onde coisas promissoras se desfaçam
como amor e despedida que se reúnem
e desenham um tapete de areia e vidro
no qual os suaves reflexos de espelhos multiplicados
levem a um infinito inventado
de abraços comovidos e de um desamparo maiúsculo...

em meio a tanto tumulto
cada contato é abençoado;
mesmo que o mundo mude velozmente
o carro arcaico dos sonhos carregarão as almas
para o mesmo destino de sempre:
o nunca entender do não encerramento da dor;
do não saber da sorte de um amor;
o temor do exílio da morte...

em meio a tanto tumulto
a antecipação das despedidas é necessária;
a dificuldade dos abraços nos espaços mais amplos
os lamentos aprisionados nas pálpebras violentadas
os ponteiros que quebram docemente nas mãos cansadas
de um anjo tecido de sal e enxofre...

em meio a tanto tumulto
a quase certeza do pássaro
se dilui no sonho do céu
decomposta como uma alma que desencarna
e não sabe ainda quem é realmente
e, tumultuada dorme agoniadamente
num colo aninhado destruído pelo sopro.
E, à rua, os espectadores sombrios do cotidiano
enxergam indiferentes
a comoção do algo que
feliz
cai.


AAS (marca nem tão registrada assim)
às vezes o passar do tempo é como um balançar de cabeça
ao som de cantigas ideais ou mesmo do entorpecimento
dos minutos antes do sono

o desprazer do tremor da ansiedade ilimitada
repetida suspirada continuamente
no pó que sobe do calçamento
na poeira impregnada na mesa tediosamente limpa
a cada hora

selvagens violências nos pesadelos ideais
até a conversa premida de soluços com os fantasmas visitantes
adiante as estrelas esfregam os olhos por sobre as antenas
e os pensamentos fixam-se nas mãos suadas das latas geladas
do álcool companheiro estupefaciente marinheiro
das ondas mais vagas de versos dilatados
o miado imitado, o latido irônico
instintos primitivos

talvez até acordar e sentir
que, a despeito das nossas vontades etílicas
a vida - sempre ela -
é um imenso comprimido de ácido acetilsalicílico.



Para conhecer mais do trabalho de Álisson da Hora visitem:
http://pontispopuli.blogspot.com/

sábado, janeiro 10

Síndrome do Caranguejo Manco - Teorias Apócrifas - Parte I

Certa manhã, enquanto caminhávamos pelas ruas de Viena,
Freud e eu passamos a discutir animadamente sobre a síndrome,
suas causas e consequências e a influência da linha do equador,
na formação e desenvolvimento da mesma.
Na verdade a discussão animada era apenas da parte de Freud,
pelas manhãs, prefiro o silêncio.
Sustentava ele que a inveja do pênis alheio,
misturada a uma misoginia indisfarçável,
levava as pessoas a encher seus carros com um equipamento
de som possante, estacioná-los junto a bares, residências,
igrejas, calçadas e mandar ver na barulheira.
Sendo tudo isso um sintoma entre outros.
Confesso que não fiquei plenamente convencido,
mas, como Freud explica, tentarei descrever
a teoria por ele apresentada.
Quero desde já esclarecer que qualquer erro
deve ser colocado na conta dos tradutores
ou na minha memória fraca.
Freud entregou-me um manuscrito com sua teoria...
infelizmente o mesmo se perdeu,
quando empreendi assombrosa busca pelo Graal.
O que segue baseia-se em traduções não autorizadas
e do que ficou na lembrança.
Dizia ele que o mundo está cheio de tabus...
e acrescentou:
"A linha do equador, música ruim e alta, misoginia,
inveja do pênis, pernambucanidade, cerveja quente,
monocultura da cana e outras, bairrismo,
desejar Brad Pitt e sonhar com Angelina Jolie,
analfabetismo e os batidíssimos complexos
de Édipo e Elektra, formavam no indivíduo uma
tendência inconsciente de abertura para a síndrome,
chegando a transformá-la em fator positivo,
através de um sutil sistema de recompensa e punição."
Eu pensei que Freud estava misturando
Skinner com Jung
ou pretendia desenvolver um poema dadaísta.
Seja como for, a abordagem de Freud
foi a primeira a tratar a síndrome
sob um ponto de vista psicológico.
A comunidade acadêmica continua dividida quanto ao assunto.
Há quem sustente que o manuscrito nunca existiu
e que tudo não passa de uma farsa, criada por um discipulo.
Outros afirmam que o manuscrito existe
e que se encontra escondido na biblioteca do Vaticano,
junto com um livro de Aristóteles sobre a comédia.
A discussão prossegue...
Tristan Tzara não quis se pronunciar de modo cartesiano.
Skinner e jung não foram encontrados.
Continuo na busca pelo manuscrito
na tentativa de elucidar a questão.

Elias Mouret

sexta-feira, janeiro 2

Sob o sol e as estrelas!

Há um ditado:
'É preciso olhar as estrelas
para chegar a esquina
e dobrar a esquina
para chegar as estrelas'.

Ele está no chão olhando o céu,
consumindo a si mesmo, amando suas asas.
Todas as possibilidades estão abertas...
Sonhos não são fantasias
eles nos perseguirão,
farão de nossas vidas um desejo eterno,
uma felicidade cheia de contratempos,
uma tranquilidade amarga...
vão conosco por toda a vida.
Precisamos de bobagens, brincadeiras,
para sermos felizes sonhando.
O tempo passou!
Caminhamos por areias escaldantes,
rodopiamos,
somos jogados de um lado para o outro.
Jogamos.
Nós, nos organizamos em grupos...
Podemos buscar alguma universalidade...
Alguns caminham com suas roupas brancas
sob o sol, desejam paz. Outros justiça.
Fico com a justiça. A paz social é uma tolice!
Tudo é luta!
Rejeitemos os bairrismos tolos, os partidarismos.
A esquerda e a direita estão mortas.
Evitemos confundir ideologia com ética...
Sonhamos em um novo tempo.
Ícaro, alça vôo
é uma figura imperfeita, suas asas talvez derretam,
seus desejos, são maiores que ele mesmo.
Talvez, como Moisés, não entre na terra prometida.
Que fazer? Um ensaio fotográfico sobre o vôo.
Uma imagem bela!
Abrimos nossas asas
sob o sol e as estrelas.
Novos Ícaros, nos lançamos em nossa aventura trágica,
com o coração esperançoso!

Elias Mouret

Hóspede da semana :: Amanda Gabriel

A TRUPE hospeda a artista Amanda Gabriel, divulgando alguns de seus poemas por uma semana aqui no blog. Amanda é formada em artes cênicas pela UFPE, é atriz, preparadora de elenco, trabalha com moda e escreve.

Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!


da minha falsa grandiosidade
eu queria ser

esmagadora
catastrófica
escandalosa
como um vulcão
mas sou miudinha
e caibo quietinha
no teu bolso


existencialismo fashion
difícil é encontrar
uma roupa que caia
bem sobre esse peito
aberto com as costelas
engaiolando meu coração
e que com combine com meus sapatos azul-magritte


a menina do poço
No meu quintal tem um poço seco
uma tampa velha de madeira com uma pedra por cima
calam o poço já nem lembro há quanto faz
Todos os dias cedinho
quando ainda é madrugada
levanto descalça
vou até o poço
Na tampa pesada há uma brechinha
sobre a qual me debruço e olho:
dentro do poço
no fundo
uma menina costura roupinhas de boneca
- apesar de eu nunca ter visto uma boneca no poço -
Ela tem os olhos de mar
as mãos de algodão
a pele de sal
e sempre me olha em silêncio
calada como o poço
como se houvesse uma pedra em sua boca
Em seus olhos me vejo como num lago verde de lodo
e reconheço sua saudade e solidão
mas há algo desconhecido em seus olhos que me apavora
Volto correndo para a cama
sujo meus lençóis de terra
passo o resto do dia ali,
com saudades da menina do poço
esperando a próxima madrugada
E choro pensando se a menina do poço
sofre de frio ou fome ou de insônia
mas é idiotice chorar assim
A menina do poço não chora nunca
nem por mim


da minha enorme pequenez
tudo é pequeno pequenino

e frágil como bibelôs
no centro de mesa da casa da tia brega
o menor espasmo lança tudo ao chão
faz do vidro de novo areia

tudo é pequeno, pequenino
e eu sou invisível a olho nu


Para conhecer mais o trabalho de Amanda visitem:
http://invisvelaolhonu.blogspot.com/
http://sacolaria.blogspot.com/