sexta-feira, janeiro 16

Hóspede da semana :: Álisson da Hora

A TRUPE hospeda, divulgando alguns de seus poemas por uma semana aqui no blog, Álisson da Hora.
Álisson, mestrando em Teoria da Literatura (UFPE), tem 31 anos, também é tradutor, além de trabalhar como professor. Tem dois romances não publicados, Quinto Sentido e Arabela e sempre rabisca poemas no seu blog (o endereço segue no final da postagem).

Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!


Ascender
não te escondas
mas, precisando se esconder
te farei de pipa
para que ninguém te perturbe no seu voar

prometo: ninguém perceberá teus passos
tranqüilos nas quinas das nuvens
nem teu olhar divagante por sobre
as cabeças dos pequenos necessitados
da misericórdia mais pungente.
te guardarei nos meus bolsos
para lembrar como quem olha uma fotografia querida
te trarei como uma promessa de viagem
um devaneio ao final da tarde mais calada.

se esconda
embaixo dos meus poucos versos
o abrigo mais bonito que eu posso te dar
com um sopro de sol se pondo
o afago amigo das linhas pensadas

refugie-se no campo sensato da tua alma
no que podes pensar de bom ao final de um dia
deixe-se fotografar pelas minhas mãos
e fique tranqüila

aqui, estarás segura


Casanova e Henriette
a memória é uma espada ensangüentada
- adeus -

a felicidade dura, durará?
Tem de durar?

Pode?
Não sei.

Nunca se sabe.

os adeuses brilham nos bicos
de insones pombos
sob o sol de Parma

em todos os vidros de Genebra
riscados em diamantes
nas janelas

- tu esquecerás, também -

Esqueça-me é fácil de dizer.

a dor só aumenta à medida em que
após sete semanas
sete anos
esquecer é impossível
e é impossível querer esquecer

Adeus


No silenciar
o machado em mãos, há quem pense que se distribui flores

as quinas do quarto apontam para o centro dele: a saída fechada
a janela entreaberta, a lua que mingua, o calor que arrefece

o machado em mãos, mas há quem pense que há flores

as músicas que tocam nas extremidades, o cheiro
de vinte mil pensamentos dissipados, as estrelas
e a lâmpada, sempre a esvanecer-se antes das onze

as flores em mãos, o olhar janelas, o café

e o entorpecente noturno, notívago, lunar
amestrando todas as sensações derramadas
as fotos vitimadas, o conhecer
enfiados nas mandíbulas de cachorros raivosos

o machado em mãos, derrotando as flores

as nuvens sobre as cobertas, encobrindo o céu
as pulsações de oitenta batimentos, pelos lençóis,
dedos, o sorriso que se vai na noite insone
num pedaço de pesadelo selvagem
arrastados pelo sonhar acordado, a viagem
tremenda de viver e acordar

o machado em meio ao silêncio

as flores que sobrevivem ao suor da madrugada


Bandeiriana
ser vivida...

as perturbadas voltas do relógio
quem sabe, sejam para serem esquecidas
esquecer. esquecer.esquecer tudo.

geralmente as almas não se entendem:
nem se quisessem.

impossível descanso = não há como descansar
a cabeça cai do travesseiro
as pernas escorregam pelas quinas da cama
da felicidade
o único resquício:
retraços de músicas escancaradas ao som da manhã

acordei. manhã escura. era tarde:
mas não chovia
aqui não chove.
mas em mim ainda persistia uma absoluta capacidade
absurda de resignação.

o café quente e doce
eu mesmo fiz

levantar. deitar. pensar
pela janela
todos os dias
um avião perdido
me castiga:

as lições de partir jamais aprendidas
o desgaste da permanência

é da vida.

quando hoje acordei
me dei conta de que me era impossível repetir
tudo. até o pouco. teu verso embandeirado
nem humilde
pensamento nenhum meu o foi
os aviões continuaram me dando lições de ir embora
esquecer. esquecer. esquecer tudo.
nenhuma frase me traria
de volta as asas se partem na primeira nuvem
que encontram. qualquer mulher
que eu amasse
supostamente.
ali se perde. nem paraíso terrestre. nem celeste
nada.

enquanto isso
a vida espera...


Antologia
Em meio a tanto tumulto
nenhum coração é poupado;
talvez exista uma praça bagunçada que desconhecemos
onde coisas promissoras se desfaçam
como amor e despedida que se reúnem
e desenham um tapete de areia e vidro
no qual os suaves reflexos de espelhos multiplicados
levem a um infinito inventado
de abraços comovidos e de um desamparo maiúsculo...

em meio a tanto tumulto
cada contato é abençoado;
mesmo que o mundo mude velozmente
o carro arcaico dos sonhos carregarão as almas
para o mesmo destino de sempre:
o nunca entender do não encerramento da dor;
do não saber da sorte de um amor;
o temor do exílio da morte...

em meio a tanto tumulto
a antecipação das despedidas é necessária;
a dificuldade dos abraços nos espaços mais amplos
os lamentos aprisionados nas pálpebras violentadas
os ponteiros que quebram docemente nas mãos cansadas
de um anjo tecido de sal e enxofre...

em meio a tanto tumulto
a quase certeza do pássaro
se dilui no sonho do céu
decomposta como uma alma que desencarna
e não sabe ainda quem é realmente
e, tumultuada dorme agoniadamente
num colo aninhado destruído pelo sopro.
E, à rua, os espectadores sombrios do cotidiano
enxergam indiferentes
a comoção do algo que
feliz
cai.


AAS (marca nem tão registrada assim)
às vezes o passar do tempo é como um balançar de cabeça
ao som de cantigas ideais ou mesmo do entorpecimento
dos minutos antes do sono

o desprazer do tremor da ansiedade ilimitada
repetida suspirada continuamente
no pó que sobe do calçamento
na poeira impregnada na mesa tediosamente limpa
a cada hora

selvagens violências nos pesadelos ideais
até a conversa premida de soluços com os fantasmas visitantes
adiante as estrelas esfregam os olhos por sobre as antenas
e os pensamentos fixam-se nas mãos suadas das latas geladas
do álcool companheiro estupefaciente marinheiro
das ondas mais vagas de versos dilatados
o miado imitado, o latido irônico
instintos primitivos

talvez até acordar e sentir
que, a despeito das nossas vontades etílicas
a vida - sempre ela -
é um imenso comprimido de ácido acetilsalicílico.



Para conhecer mais do trabalho de Álisson da Hora visitem:
http://pontispopuli.blogspot.com/

2 comentários:

Alisson da Hora disse...

Gente, valeu a força!

Lis disse...

Todos são lindos, mas acho Ascender o mais, mais!

Bonita a iniciativa.