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sexta-feira, dezembro 26

Hóspede da semana :: André Pruden

Nesta semana a TRUPE hospeda o artista André Pruden, com seu trabalho Crônicas Sonoras em três tons e dois recortes.
André é músico e compositor com trabalho predominante em trilhas sonoras para diversas linguagens de expressão artística.

Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!

Colocar o som em cena! Este é o desafio do novo espetáculo musical de André Pruden. Em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco o músico e compositor convidou Duda Lopes, Josivan Rodrigues e Guilherme Patriota para criar o roteiro e dirigir um filme de média metragem. CRÔNICAS SONORAS em três tons e dois recortes – se apropria de várias linguagens artísticas (ficção, documentário, HQ, teatro e música) para contar histórias do cotidiano de um grande centro urbano que acontecem ao nosso redor, passam despercebidas na maioria das vezes, mas estão completamente interligadas em seqüência lógica. Nesse projeto a música deixa a função habitual de apoio à narrativa cinematográfica e encontra-se em primeiro plano, conduzindo as diversas nuances da história. Neste vídeo você poderá assistir ao trailer do filme.




Para conhecer mais o trabalho de André Pruden: http://www.myspace.com/andrepruden

Síndrome do Caranguejo Manco - Visagens Históricas - Parte II

Estamos em terra firme...
tudo é labirintite e tonteria.
Nós espalhamos cana e grilhões por toda parte
a cor é uma infâmia...
Partidos por todos os lados. Mauricinhos de Nassau.
A síndrome se propaga entre nós como epidemia.
Alguém explica o fetiche do orçamento participativo?
Freud?
Perdemos o prumo, o sono e o sorriso.
Nossos jardins são canteiros de derrotas
e os urubus se aproveitam.
É um mundo triste e sujo.
Como somos violentos,
começamos a agredir nossos filhos,homens, mulheres,
a nós mesmos.
No corredor leste-oeste
caminhamos na imundície, no lixo.
É possível viver nesta sujeira?
Bit, bit, beat, armorial
da casa grande observei minha senzala
como é intolerante
a pernambucanidade multicultural.
Agora temos um novo pacto pela vida,
será que sobrará alguma mulher
para contar a história?
O maior shopping, a maior avenida em linha reta,
a maior violência...
Domingos Jorge Velho foi convocado,
vai dirigir o novo pacto,
a nova e eterna aliança...
não vai sobrar Zumbi
ou talvez só os zumbis sobrem, afinal.
O senador continua rezando na Madre de Deus?
Jomar Muniz, fez um atentado poético
e os militares arrastam Gregório Bezerra.
Agitação, sonhos, desejos, novas esperanças.
Barack Hussein Obama para governador de Pernambuco.
O anjo do senhor, corre nu pela rua da Aurora
abraça Chico Science e anuncia:
"Ave Sangria"!

Elias Mouret

quinta-feira, dezembro 18

Hóspede da semana :: Eron Villar

A Trupe hospeda por uma semana no seu blog o artista Eron Villar, divulgando um de seus contos intitulado BATENTE.
Eron dirige peças teatrais, vídeos, escreve, ilumina, produz. É integrante do grupo Engenho de Teatro que estreará um novo espetáculo em 2009, Meninas de Engenho.

Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!

BATENTE

Todos os dias eu passava por aquela esquina e ele estava sempre lá. Olhava pra mim com uma carinha que dava dó. Seus olhos remelados, seus cabelos enroladinhos e despenteados como os de um anjo maltrapilho. Implorava com um enorme sorriso e um ar melancólico.

- Moça, dá uma alegria pro Pequeno!

Eu insistia em dizer: “Hoje num tenho nada!” Nunca me culpei por isso. Sempre achei que não é com esmola que se cuida dos problemas sociais e etecetera. Nem vale a pena conversar sobre isso. O fato é que não dou esmolas e pronto. Criança na rua pedindo tem em toda esquina, se for sustentar todas não pago minhas contas.
Mas naquele dia, não sei por que, já acordei pensando no Pequeno. Iria conversar com ele. Queria saber tudo sobre sua vida. Quem sabe eu pudesse fazer alguma coisa mais consistente do que dar algumas moedas.
Saí para almoçar mais cedo para ter mais tempo com o menino da Esquina Feia. Aliás, aquele era um dos lugares mais feios e esquisitos do Bairro Antigo. Calçadas fedendo a mijo, paredes sujas de merda, casebres abandonados. E o menino misturado àquela paisagem, como se fosse parte daquele cenário grotesco. Uma figura encravada na textura rústica e poluída das paredes, como em um quadro de Magritte.
Na porta do prédio o celular tocou. Era Otávio querendo marcar para almoçar. Há três dias não me ligava o rapaz. E justo agora resolvera dar notícia.

-Você vai me desculpar Otávio, mas hoje eu não posso. Tenho um compromisso. Paquera? Não bobo! Um anjo!!! Não, não e não, hoje não... tchau!

Cecília, que sempre almoçava comigo, só viria trabalhar à tarde. Seu filho machucou o tornozelo em um Parque de Diversão. Um desses que cobram os olhos da cara por um passaporte. Deveriam ter seguro contra acidentes. Ou dedução no IR.
Tudo certo para o meu encontro com o Pequeno. Percebi que estava nervosa. As duas quadras que caminhava até o restaurante pareceram ter quilômetros de distância. Quando cruzei a Esquina Feia esperei ouvir sua voz aguda:

- Moça, dá uma alegria pro Pequeno!

Nada!

Pela primeira vez em seis meses o menino com cara de anjo não estava lá. Perguntei a outro garoto. Ele falou que o Pequeno estivera lá até meia hora atrás, mas não o vira sair. Resolvi esperar. Passei quinze minutos de pé, olhando impaciente para os lados. Outros quinze olhando o relógio. Perdi até a fome. Eu não sabia por que, mas precisava muito ver aquele garoto.
...

As treze e vinte e cinco liguei para o trabalho e avisei que chegaria um pouco atrasada. Neste instante eu já estava sentada na calçada. Com as mãos no queixo, a pele suada, os cabelos assanhados pelo vento.
Resolvi não esperar mais. Preparei-me para levantar. Foi quando passou um casal com uma criancinha ruiva sorridente. Ela me estendeu a mão e me deu duas moedas de dez centavos. Achei absurdo, a princípio. Esbocei uma reação. Talvez dizer que não era mendiga, mas...
A criança de cabelos vermelhos olhava pra trás sorrindo para mim. Estava feliz por ajudar alguém. Eu não concordava com aquilo, mas estava ali também para isso. Sorri para ela e sentei novamente na calçada. Esperaria por mais alguns minutos.
O sol estava forte, era verão. Encostei-me à parede suja, aliás, o mau cheiro já não me incomodava tanto. Adormeci. Acho que sonhei com o Pequeno correndo feliz. Era um campo verde e arejado. Muitas crianças sem rostos, só o do Pequeno era nítido. Eu também corria, presa a umas cordas, meio angustiada. Quando acabou o campo, caí em um penhasco infinito. Parecia um daqueles sonhos de infância. O penhasco virou um enorme buraco quando deixei de ver o rosto angelical daquele menino.
Acordei assustada!
Um homem estava prostrado à minha frente com uma farda azul. Era um guarda municipal.

- Vamos moça, não pode mais ficar pelas calçadas! - Quase gritou no exercício de seu abuso de autoridade.
- Espera moço, eu estava só esperando uma pessoa.
- É??? E eu espero o Coelhinho da Páscoa. Vamo logo! Circula, circula!!!

Aquilo foi realmente abusivo. Recompus minha dignidade, liguei para o escritório e acionei o doutor Fontes, o advogado da empresa. Que absurdo! Falei umas boas verdades para o guarda. Ele pediu desculpas e por tudo nesta vida que eu esquecesse aquilo. Esquecer nada! Iria até o fim. Depois que o doutor Fontes chegou, me levou de volta à empresa. Meu chefe me liberou a pedido do advogado. Resolvi caminhar um pouco para esquecer aquele dia maluco. Passar por tudo aquilo por causa de uma criança de rua que eu não sabia nem o nome. E jamais voltaria a ver! Certas coisas servem de lição para nós. Cada um que viva seus problemas. Sempre pensei assim, que ingenuidade a minha. Era apenas mais uma entre milhares.
O sol estava se pondo, resolvi tomar um sorvete na praça. Um lugar bem mais agradável que a Esquina Feia do Bairro Antigo. Sentei-me em um banco, chamei o sorveteiro, escolhi o sorvete e quando puxei a bolsa para pagar, meu coração gelou, não sei se de susto ou de esperança. Uma voz suave falou baixinho:

- Moça, dá uma alegria pro Pequeno!


Eron Villar

quarta-feira, dezembro 17

E o L mais uma vez faz crescer a esperança (?)

Ao menos no meio artístico o anúncio do responsável pela Secretaria de Cultura ainda causa uma certa expectativa. Renato L será o secretário dos 219,493 km², 94 bairros e uma população estimada em 1.422.905 habitantes que vivem no Recife.
Bem, damos as boas vindas e desejamos muito trabalho para todos nós. Mas há algo que gostaria de começar dizendo ao senhor L, logo assim de primeira mesmo, pois após assistir a um vídeo no qual L diz que “não serão feitas mudanças radicais” não poderia deixar de me pronunciar.
Caro futuro secretário, por favor, com a poeira baixa, podemos ver juntos que precisamos de muitas mudanças e algumas super radicais na área da cultura, falarei um pouco da minha área, as artes cênicas. Vou começar pelos nossos teatros, estes necessitam de mudanças radicais! Eles estão mal equipados, não há manutenção regular nas casas, nem um corpo de funcionários que permanentemente vivenciem cursos, palestras ou workshops com a intenção de dar uma reciclada nos conhecimentos e tal. Os teatros não abrigam bem os portadores de deficiência física, com exceção do teatro de Santa Isabel, o acesso é bem problemático, isso também precisa mudar. Também carecemos de um olhar atento para alguns grupos e companhias que trabalham durante todo o ano sem subsídios, e não têm um espaço físico para abrigar seus estudos e apresentar seus trabalhos. Talvez apoiar espaços como o da Compassos Cia. de Danças ajude na acolhida a estes grupos, depois se o senhor quiser podemos passar o contato do pessoal de lá. Precisamos de mudanças urgentes nos investimentos destinados a formação, com cursos interessantes, instigantes para os artistas, com uma boa carga horária. Os investimentos também precisam ser aumentados para abrigar residências artísticas, intercâmbio entre grupos, viagens por todo o país e exterior... Precisamos de tempo, senhor L, de tempo para experimentar, para trabalhar nas descobertas, precisamos de ar-condicionado nos ensaios e de liberdade para usar todos os equipamentos disponíveis nos teatros. Precisamos de dinheiro!!! O fomento as artes cênicas é um prêmio mixuruca, os valores são ridículos e eu nem falei do desconto com os impostos incidentes... Precisamos de mudanças na condução das políticas públicas para cultura, os gestores de cada equipamento poderiam estreitar relações com os artistas ao discutir e planejar as ações, as já existentes e as que estão por vir, em reuniões periódicas. Ser secretário de 94 bairros é bem complicado, contudo há artistas interessados em levar seus trabalhos e desenvolver novos projetos em locais longe do centro da cidade, pois seriam realmente maravilhosos os encontros e as trocas com os artistas destes bairros (que também precisam de profissionalização e reconhecimento por seus trabalhos) e seus públicos. Uma ação efetiva para cuidar dos circos também viria a calhar.
Então, senhor L, poderia listar tantas coisas que precisam de mudanças, rupturas sérias, mapeamento, cadastramento...
Assim como o senhor, estamos apenas começando.
Assim como senhor, também reconhecemos os avanços desta gestão e por esta razão desejamos mudanças, os parâmetros hoje são outros e isto, em parte, também é fruto de todas as mudanças positivas nesta Secretaria nos últimos anos.
Vamos juntos e com confiança nos nossos trabalhos.
Até!

Viviane Bezerra

quinta-feira, dezembro 11

EU curador de MIM

Ando refletindo sobre um fato que ultimamente é bem recorrente em alguns eventos (festivais, mostras, exposições, feiras) da cidade , o EU curador de MIM!
Há mais coisas entre o céu e a terra no trabalho de um curador do que o público pode imaginar ou deva ficar sabendo... Um ponto me chama a atenção nisso tudo: é a quantidade de curadores (e nesta cidade o que não falta é evento para abrigá-los!) que selecionam os próprios trabalhos, excluindo outros tantos de diferentes criadores, para participar do evento no qual é curador. Não entro aqui no mérito artístico dos trabalhos, e está claro que se o produzimos queremos mais é investir na sua difusão, mas o que me cria um constrangimento é perceber que estes eventos estão abarrotados de curadores-estrelas, que dentro de um contexto de evento público (com dinheiro ou equipamento público envolvido) é algo ainda mais grave. A discrição do curador na sua pessoa aumenta a credibilidade do evento. É espinhosa a função de curador, mas tem suas muitas delícias que podem reverberar positivamente para todo um grupo de pessoas. Se a função for praticada seriamente, em conjunto com outras funções praticadas tão seriamente quanto, podemos sentir num curto espaço de tempo o desenvolvimento na percepção estética do público, através da valorização da diversidade e rigor artístico nas ações programadas e executadas. A ampliação do público virá por conseqüência, contribuindo para movimentar permanente e não pontualmente um mercado de consumo dos bens culturais. Creio que ajudaria nesta diversidade se a curadoria não fosse praticada constantemente pelas mesmas pessoas. Mas há eventos com naturezas e fins tão distintos...
Na realidade, posto este início de reflexão para ouvir um pouco mais o que vocês pensam sobre isso.
O convite é para compartilharmos as nossas visões.
Até!

Viviane Bezerra

quarta-feira, dezembro 10

Hóspede da semana

Continuando com nossas idéias e ações para colaborar com a divulgação dos trabalhos realizados por um grupo de pessoas interessadas em participar desta rede, a Trupe pretende periodicamente hospedar um convidado para divulgar um pouco mais de seus trabalhos ou pesquisas. O primeiro a participar desta rede é Orlando Nascimento, músico e performer que vem desenvolvendo um trabalho interessante com vídeo. Esta semana postamos dois de seus vídeos mais recentes Num terreiro de criação e Ocaso.
Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!






Para conhecer mais o trabalho de Orlando Nascimento visitem:
http://www.constelacaozen.blogspot.com/
http://www.celulamater.blogspot.com/
http://www.colaborativopermanencia.blogspot.com/

Síndrome do Caranguejo Manco - Visagens Históricas - Parte I

Uma brisa soprava entre as velas
logo se tornaria um vento forte!
O sol banhava o mar, os sonhos se agitavam aquecidos.
Velas,velas, caravelas,
carnavais, revoluções e a perda dos sentidos.
Tudo viceja num barril de violências.
Ratos e homens de leptospirose a Steinbeck
coca-cola na algibeira mourisca,
tempo-espaço não linear...
visagens, Nassau, imortal, vírus.
Caravelas, carnavais, perdidas revoluções
revoluções perdidas.
Um furo na água, um furo na pedra...
rancores adormecidos.
Acordados no convés, sociólogos, bachareis,
pintores, estilistas, teatrólogos e anéis...
nos tornozelos, nos pescoços, nas mãos , nas mentes.
A bombordo o coração lamenta,
um sertão de asperezas sebastianistas se levanta!
A estibordo todos com o holandês da Alemanha,
inexistente, mitificado.
Calabar! Calabar! Fecha a porta destes mares...
Uma data, uma perda; outra data, outra perda.
Ai, ai, ai dos liberais em conservadores travestidos.
Apertai a camisa do quebra-quilos e depois,
erguei um monumento de tortura nunca mais.
Celebremos sem discernimento...
Da proa a popa um navio de derrotas, de culpas
e de um açucar amargo, que não adoça a boca.
"Enterremos o mérito, sufoquemos a leveza,
na merda dos 'tigres' afoguemos a aurora.
Ódio para todos, aspereza, aspereza. Fale mal de um baiano!
Que ninguém vença, que ninguém seja feliz"
Na proa a síndrome da derrota e do rancor!

Elias Mouret

domingo, dezembro 7

Parábola !

No princípio era o verbo!
Era um mar de pedregulhos, todos seguros de si
fincados na areia, imutáveis.
Há quem diga que eram dogmas católicos
e as pessoas acreditavam...
"Creio porque absurdo"!
Tão na areia fincados como barro
que não davam conta do vento
e se desfaziam em juízos.
Por entre as frestas, entulhos e um conjunto de sons
zumbindo, latindo, rangendo...
conjuntos vários, complexos,
frágeis, como que nascidos de um sonho.
Balançando ao vento,
comungavam com tudo que se desmancha
eram feitos de humor e de açucar.
Das bocas escancaradas,
acostumadas a mal-dizer, mal-querer, mal-beijar
uma única palavra escapa: Blasfêmia!
_ Chamem a Inquisição! Gritou o cardeal,
cercado de leões de fraque.
Um filhote de leão discordou do pai.
O pai eterno coçou a cabeça...
era um mar de pedregulhos
cercado de poesia.
E no princípio era o verbo, que não vivia sozinho!

elias mouret