quinta-feira, novembro 4

Sobre as coisas e a jornada!

Longe está o dia da colheita...
O que precisamos perder para percebermos
que cedemos demais? É possível prescindir das virtudes?
Vivemos num tempo que parece abandonado
no próprio tempo. Um tempo de realizações melancólicas
de lembranças daquilo que não foi realizado,
não foi possível, do que se frustou por sua própria essência
ou pela ação violenta dos opositores.
Nosso mundo já é assim tão digno
que devamos abandonar nossas armas e viver como
simples pedaço de carne num reality show?
Eu mostro minha bunda, vc mostra suas coxas, ele o bíceps.
Ah, que gozo, que show do milhão.
E o amor afinal, que utilidade tem?
Com a letra "a" quantas coisas vc consegue enumerar
que não são possíveis de serem abandonadas?
Amor, amizade, ação, ascese...
Faça uma listinha, minha intenção é ver se pelo menos
conseguimos chegar a justiça ou virtude.
Quem sabe passagem ou silêncio.
É impressionante como o alfabeto de alguns é
extremamente limitado. Uma boca banguela
sem a sabedoria popular.
Eu imagino o dia em que voaremos livres pelo universo.
Enquanto isto, aqui, podemos carregar conosco
uma pequena 'bagagem de mão'. É ela que vai nos ajudar
a cruzar as fronteiras, a dispersá-las,
a superar a dicotomia esquerda-direita
a aposentar o passaporte, a enxugar as lágrimas.
Em nossa pequena maleta, bisaco, bornal, mochila,
poderia faltar a poesia, a indignação, o Tao?
É nosso coração e mente, que conduzem nossos pés,
embora alguns sejam feitos apenas de estômago
e obviamente vão me considerar um tolo sonhador.
Os sonhos então, onde estarão?
Eu os conduzo, eles me conduzem, somos amantes.
Vou levar comigo também, tempo, alegria e palavras,
agir e não-agir.
Não poderei deixar de lado os espinhos na carne.
Agreste também vai. Esta região que não é tão áspera
quanto o sertão, nem tão doce quanto a zona da mata
e seu açucar de escravos mascavos.
O que nós podemos abandonar,nossa dignidade?
É possível viver sem luta?
E por favor não vamos confundir viver com existir.
Sinto que me falta o rigor filosófico...
resolvo isto com filosofia.
Gosto de ipês roxos, rosas, amarelos e brancos.
Da sombra que refresca um dia de verão.
quando criança, minha mãe presnteou-me com um livro:
"A fazenda do Ipê amarelo". Nunca mais o vi.
Colocarei livro, cores, verão, sombra e água fresca,
coisa que falta a muita gente por aí,
gente que bebe de uma água salobra e amarga
de uma amargura que vem do ventre
que tinge de cinza ou verde o líquido da vida.
Dúvida também estará presente. Esta coisa que
me faz sofrer em delícias todos os dias e algo mais.
E sementes...
Acordei com indignação de palavras,
caminhando na corda estendida
entre o homem e o super-homem.
Levo também sexo e chocolate,
corrida solitária e apreciação filosófica
dos horizontes marítimos.
Sacrifício, coragem, oração e vitória.
Espanto , entrega e arte.
Deus, meu deus, porque me abandonaste?
Terei temores e uma janela.
Chuva, chuva chuva e o cheiro de terra que me agrada.
Fascinação e despedida.
Ontem encontrei com meus amigos da Trupe de Copas,
falamos de Shakespeare, de política cultural,
de estatutos. Como sempre, falei demais.
Acredito que este é um método de tentativa e erro.
Eu escrevo para eles, para vc, para mim mesmo.
Sim, para meus fantasmas e demônios.
Eu desejo para eles a santa indignação das palavras
do agir e do não-agir.
Nós caminhamos juntos e embora eu saiba, como disse
o profeta, que "um é o que planta e outro o que colhe"
uma luz ilumina minha alma.

eliasmouret

Um comentário:

Marcio disse...

'dentro de si mesmo,
mesmo que lá fora
fora de si mesmo,
mesmo que distante,
e assim por diante
de si mesmo
ad infinitum...
tudo de si mesmo,
mesmo que pra nada
nada pra si mesmo,
mesmo porque tudo
sempre acaba sendo
o que era de se esperar'


bam, ótima reflexão!
vamo que vamo, avante!

abração
márcio carneiro