segunda-feira, março 16

Hóspede da semana :: Bárbara Cristina

A Trupe hospeda nesta semana Bárbara Cristina. Bárbara é poeta, escritora, jornalista cultural e assessora de imprensa formada pela Universidade Católica de Pernambuco em 2007. Escreve poesias desde os 10 anos e vem experimentando outras faces da literatura e comunicação ao escrever contos, crônicas, resenhas, artigos, observando as potencialidades e efeitos da poesia dentro do cotidiano e da vida das pessoas, através de uma visão e linguagem delicada, prolixa, irônica, adocicada, insana. Mantém desde 2006 o blog Barbaridades de uma Loba em construção que pode ser acessado pelo link www.eusoulbarbara.wordpress.com.

Crônica do ônibus sem destino

Encontro-me sentada no último assento, do lado esquerdo, do ônibus Rio Doce CDU. Encosto a cabeça no vidro frio da janela, enquanto, do outro lado, a chuva cai em garoa fina, bem fina. Tão fina que se estivesse fora não a sentiria a me molhar. Em dias comuns, onde o espanto e a admiração são a última escolha sã. Sinto-me normal. Acompanhada de uma normalidade fora de si! Estúpida conformidade entranhada no homem de agora. De repente – sem querer plagiar o Vinícius, mas… – não mais que de repente, entra um sujeito esquisito a princípio. Entre longos e apressados “cagoetes”, sorri nervoso e grita em ânsia e agonia: – Salvem o poeta! – E, continuando o homem, rugia em alegria e tristeza descomedida: Salvem o poeta! – De certo ninguém entendia nada. Ele continuava a nos olhar a espera não sei de que. Algo como uma lepra enfurecida contagiava a todos com a mesma curiosidade do louco: Todos queriam saber! Sem nem saber “o que” querer, cada um que desejasse mais. Cada qual disfarçasse a vontade insana pela pergunta ideal: O que esperas? – Todos aqueles pobres de espírito clamavam dentro de si. Sem que alguém notasse a inquietude retornara ao “lar, doce lar”. E, aquela voz agonizante – intrínseca à multidão –se repetia em uníssono para ilusão geral: o que esperas louco homem? Anda, fala logo, não nos constrangeis mais! – Humilhados, esperneavam mentalmente: Deixa-nos em paz, louco homem parte de nós! – e como se nada pudesse ser feito para mudar tal situação, um silêncio consolou a idiota multidão. Idiota multidão! Como se estivessem, todos os passageiros, lá no fundo, do lado esquerdo, sinto uma imensa falta de ar. Minha respiração ofegante me confunde com um velhote a subir a Ladeira da Misericórdia. Carácolas, esse ônibus não chega a lugar algum ou chega a lugar nenhum! Apenas sinto: meu destino é o nada! De volta ao mundo irreal… O homem barbudo grita ao pé do ouvido – que sai a correr, sem querer ouvir – Levanta-te garota! Salve o poeta! Vamos, levanta-te! Desconcertada com a inconveniente situação, levanto-me e vejo que me perdi em lugar estranho! Onde estou? Pergunto ao homem enquanto o xingo em pensamento: velho barbudo! – Você está no terminal da integração de Rio Doce CDU.

Bárbara Cristina
eusoubarbara@gmail.com

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