segunda-feira, março 30
Hóspede da semana :: Adilson Jardim
Ajudem-nos a divulgar mais este trabalho e boa visita!
MANHÃ
Entre galhos luminosos
Através das lentes dos olhos
Nuvens se envolvem
Se mitigam se machucam.
O amor natural em vistas ociosas
Escapa, seu primitivo arrebatamento.
No istmo das costelas
Na proa dardejando a amplidão
Vasta planície grávida
Na sua plasticidade não-humana.
Abaixo, árvores rezam solidãomente
Pernas de óculos e velho passeiam – inerte a praça
A janela umedece nos seus contornos extremos.
A mente umedece como por uma lágrima.
Vão morrendo os pardais
Um morcego entra pela janela da memória
Que há muito guardava flores rubras e uma cena verde
Agora tocadas pelo chão.
O ARQUITETO
O arquiteto não especula
Mede, calcula, delimita
Possibilita o alvo.
Sua retina não brilha
Não há viezes em suas previsões
Atinge as varizes das casas e entrega o objeto intacto.
Diz do que é elegante
(Diz-que-me-diz não é seu campo)
Diz – e não narra.
Não narra. (Há sofrimento
tanto nas cidades, há procissões
de medos nas ruas – de um lugar que não existe –
mas o arquiteto não as vê;
se as vê, manda o trator ruir).
As lágrimas são seus jardins irrigados
Seu canal obstruído, seu fosso.
A MULHER AMADA
Uma mulher amada. A mulher sem danos.
A mão danada provocando enganos,
Engodos, suplicando como se a mulher amada
Fosse a única, a verdadeira, de nuances que
A tornam múltipla. De música que a faz harmônica.
A mulher sem túnica. Única, como se a boca
Despejasse santos que a substância não explica
Prescrevida antes de anunciada.
Uma mulher amada: a palavra.
***
Pensa rápido o poeta que evita o estampido
Que ouve no coração. Tão mais rápido
É a rima que a canção, que esta não a pede,
Melhor o amor que a paixão, que o impede
(ao poeta) a verdade dos versos mais sutis.
***
Tivessem os dons do Cristo
as mesmas propriedades do gesso
Ocidente a romper-se aos baques
Nós outros, em nossas santas vontades
removendo crenças com grandes desagravos
Mas, que poríamos no próximo altar?
A inabalável fé em tudo
sobre um carrossel de nada.
***
Crer em Deus é
crer demais
o poeta engendra
seu poeta demiurgo
de si
o inventário
de lembranças
das que não terá
e das que
sim
domingo, março 29
Plano Municipal de Cultura do Recife
Pontuo referências do Plano ligadas às artes cênicas, a maioria sem um cronograma com datas e estratégias definidas de implementação.
O segmento de artes cênicas vem experimentando, nos últimos tempos, avanços na constituição de uma política para o setor. No âmbito do Governo Municipal a criação da Secretaria de Cultura e posteriormente a reforma administrativa da Prefeitura do Recife, em sintonia com a instância Federal, proporcionou o surgimento de um novo cenário cultural. Para o que concorreram ações pontuais importantes no plano estadual, num somatório de intervenções que vieram contribuir para a otimização das artes cênicas locais.
Como exemplo dessas conquistas, observam-se melhorias na gestão das políticas para as artes cênicas, resultando na criação das Gerências Operacionais de Artes Cênicas e de Teatros, que proporcionou uma ação efetiva e sistemática na manutenção e requalificação dos equipamentos.
Essa política desdobra-se na reformulação e requalificação dos Festivais de Teatro e Dança e na criação da Mostra de Circo do Recife no âmbito da gestão municipal. Tais iniciativas somadas às ações de outras instâncias como Festival de Inverno de Garanhuns e o Circuito Pernambucano de Artes Cênicas (Governo Estadual); Palco Giratório do Sesc, Janeiro de Grandes Espetáculos, Todos Verão Teatro, Festival de Teatro para Criança, Festival Estudantil de Teatro e Dança, Mostra Brasileira de Dança, Plataforma de Dança, Festival de Teatro de Rua, (iniciativa privada e entidades de classe), o surgimento de novos criadores, grupos e companhias, o crescimento e o
fortalecimento de organizações e entidades de classe, Fóruns Permanentes a partir da nova constituição do Conselho Municipal de Política Cultural.
Ressaltamos a importância da política de fomento para a cadeia produtiva das artes cênicas, que gerou aumento significativo na produção local de espetáculos variados. Na esfera municipal, além do apoio institucional aos diversos festivais da cidade, destaca-se ainda o Sistema de Incentivo à Cultura e o Fomento às Artes Cênicas. No âmbito estadual o Funcultura tem contribuído também para o crescimento dessa produção e no Federal, Prêmios Myriam Muniz e Klaus Vianna.
Na área de formação verificam-se avanços expressivos em alguns segmentos como a implantação da licenciatura em dança na UFPE, uma conquista do Movimento Dança Recife, a consolidação da Escola Pernambucana de Circo, linguagens anteriormente menos contempladas, e finalmente a instalação dos Pontos de Cultura como política de descentralização, tal qual o Programa Multicultural, presentes nas Regiões Político-Administrativas. Ressalta-se que o aspecto da descentralização ganhou reforço significativo nos Festivais, sobretudo no Festival Recife do Teatro Nacional e no Festival Internacional de Dança do Recife, cujas atividades também contemplaram as Refinarias Multiculturais Nascedouro de Peixinhos e Sitio Trindade.
Além dessas ações, também verificam-se avanços em outros setores: participação efetiva nos concursos que acontecem nos ciclos culturais, estabelecimento de parcerias para manutenção e ampliação dos equipamentos, surgimento de espaços multiuso descentralizados para suprir as necessidades de formação, escoamento da produção e ampliação de espaços, com ênfase nas Refinarias Multiculturais do Nascedouro de Peixinhos (RPA 2) e Sitio Trindade (RPA 3) em funcionamento, a do Caiara (RPA 4) em fase de construção; e 3 a serem implantadas nas outras RPA’s. Espaços que uma vez definitivamente instalados, irão constituir-se em espaços cênicos capazes de abrigar produção de alto nível, estabelecer intercâmbio entre criadores e promover a qualificação profissional em nível avançado. A Fábrica Cultural Tacaruna e futuramente os Centros Culturais Capiba, Caixa Cultural, Correios e Parque Dona Lindu. Embora a Prefeitura mantenha cinco casas de espetáculos em funcionamento, há de se ressaltar a necessidade da criação de novos espaços cênicos de pequeno e médio porte.
Ainda observam-se lacunas numa política de formação continuada para os profissionais das Artes Cênicas. O Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo, embora definido como ponto estratégico da política cultural, falta-lhe a consolidação como equipamento de formação regular da cadeia produtiva das Artes Cênicas, enquanto núcleo formador de nível técnico. Noutra frente, podemos ressaltar a necessidade urgente de um Curso de Bacharelado em Artes Cênicas com habilitação em Interpretação e Direção Teatral, pela UFPE. Tais ações devem contribuir para o enriquecimento e renovação da cena local, no sentido de fazê-la dialogar com as questões estéticas do teatro contemporâneo – nacional e internacional.
Nesse contexto, identifica-se um ponto de estrangulamento quanto à regulamentação de uma política de gestão de pessoas, específica para os equipamentos culturais, no que diz respeito à qualificação, formação continuada e remuneração dos profissionais. Outra intervenção importante refere-se aos aspectos de memória do teatro, com ênfase no teatro brasileiro/pernambucano: a manutenção, o fortalecimento e a ampliação dos acervos já existentes como os do Centro de Documentação Osman Lins, do Centro Apolo-Hermilo e do Teatro de Santa Isabel e outros que possam vir a ser criados nos diversos espaços cênicos.
Apesar de todos os avanços na construção de políticas culturais focadas no fomento e incentivo à produção, outro aspecto que não pode ser negligenciado: a formação e a renovação de platéias através de mecanismos que aproximem o público dos bens culturais, como o projeto “Educação para o Teatro, Educação para a Vida”, com peças teatrais no Teatro Barreto Junior e ingressos a preço simbólico.
Necessário também se faz estabelecer uma política de ocupação dos espaços cênicos, a partir de ampla discussão com os segmentos da área, em consonância com o perfil e a identidade de cada um deles.
- Assegurar capacitação e reciclagem para trabalhadores da Cultura, que fazem parte do quadro técnico do Município, através da formação continuada, nas suas áreas específicas, suprindo carências identificadas a partir de pesquisa interna;
- Criar quadros de funcionários especializados nas instituições culturais municipais visando o pleno funcionamento de teatros, cinemas, museus, centros culturais e bibliotecas;
- Assegurar percentuais acima de 3% do Orçamento Municipal para a área da cultura, garantindo a execução das políticas públicas de cultura do município e o funcionamento da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife;
- Estabelecer critérios de ocupação das pautas dos teatros e museus municipais, definidas através de curadoria e de seleção por edital, respeitando-se a especificidade de cada equipamento e a programação oficial;
- Desenvolver políticas de financiamento para o intercâmbio cultural, criando editais, trimestralmente, para custeio de transporte de artistas, grupos e produtores culturais e/ou material, através do Fundo Municipal de Cultura;
- Desenvolver uma política contínua de acesso à cultura, incentivando a população, através de campanha publicitária educativa permanente, a criar o hábito de freqüentar a programação artística e os bens culturais do seu bairro e de sua cidade ao longo do ano. Para isso cada vez mais desenvolver uma política contínua de acesso à cultura nas seis RPAs, em parceria com os segmentos artísticos e as cadeias produtivas do Recife e do Estado de Pernambuco, para ampliar e garantir a formação e renovação de público;
- Apoiar e propor iniciativas que promovam o desenvolvimento de uma transculturalidade, proporcionando a experimentação e o encontro entre artistas de diversas linguagens, como a realização, anualmente, de um festival transcultural envolvendo os artistas das diversas linguagens e segmentos;
- Fortalecer o Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo/Hermilo como espaço de formação e pesquisa nas artes cênicas, através de intercâmbio e troca de experiência entre artistas; por meio do incentivo à produção local; da continuidade de projetos, como a Mostra de Dança Contemporânea, O Solo do Outro, Mostra de Teatro Infantil, Semana Hermilo Borba Filho, Oficinas de Inverno, Aprendiz Encena, Mostra de Dança Contemporânea, Trabalho em Processo; do apoio a outros projetos culturais e através da realização de cursos, oficinas, workshops e leituras dramáticas. Ampliar o acervo do Centro de Documentação Osman Lins, com perspectivas inclusivas de livros e vídeos sobre o teatro, dança, ópera (colocar vídeos de espetáculos de grandes mestres de teatro, da dança e da ópera);
- Estimular a elaboração de um Plano de Formação e Qualificação na área da cultura, que contemple os diversos segmentos, articulando com instituições municipais, estaduais e federais de ensino a implantação de cursos nos níveis de iniciação, técnico-médio, técnico-superior e pós-graduação, utilizando, de imediato, os espaços físicos já existentes na cidade do Recife, de forma descentralizada;
- Promover, sistematicamente, cursos pelo Programa Multicultural a cada semestre em, no mínimo, três RPA’s com maior carga horária dos cursos de iniciação a produção cultural (mínimo 260 h/a) e oficinas (mínimo de 80 h/a) com entrega de certificados devidamente reconhecidos, por meio de parcerias articuladas com instituições municipais, estaduais e federais de ensino;
- Criar o Portal Cultural do Recife, contemplando todos os segmentos e apresentando a programação cultural da cidade, bem como informações sobre a Gestão Cultural;
- Fomentar e incentivar a criação de redes e cooperativas, segundo as especificidades dos diversos segmentos artísticos no Recife. Estimular a articulação com outras redes nacionais e internacionais, promovendo o intercâmbio cultural e a troca de experiências de gestão, divulgação cultural, comercialização de produtos, entre outros;
- Firmar parceria com o Governo Federal para divulgar e potencializar o Programa Culturaprev, estimulando sua adesão pelos artistas e produtores culturais, beneficiando uma classe trabalhadora que tem direito a garantias previdenciárias;
- Fortalecer e consolidar o Sistema Municipal de Informações Culturais, instância responsável pela geração e difusão de informações culturais (artistas, equipamentos, eventos, manifestações e segmentos artísticos, cadeias produtivas, etc.), por meios eletrônicos e rede mundial de computadores, contribuindo, dessa forma, para a inclusão sociocultural e desenvolvimento econômico. Atuar conectado com o Sistema Nacional de Informações Culturais, acompanhando e
avaliando as atividades culturais com pesquisas e indicadores culturais. Consolidar o Cadastro Cultural do Recife, como base de dados, imprescindível para a visibilidade dos segmentos artísticos e subsídios para desenvolvimento de políticas públicas para a cultura. Implantar um Sistema de Informações e Indicadores Culturais, aferindo o desempenho quantitativo e qualitativo das atividades desenvolvidas em todas as áreas culturais e artísticas, visando subsidiar uma permanente formulação de políticas públicas;
- Realizar pesquisas das cadeias produtivas da cultura, em parceria com outros governos e instituições, para identificar oportunidades e estabelecer políticas e procedimentos que facilitem e estimulem a produção e a geração de emprego e renda nos diversos segmentos culturais. As informações resultantes devem ser disponibilizadas ao público via internet;
- Regulamentar e implementar o Fundo Municipal de Cultura, previsto no Sistema de Incentivo à Cultura do Recife (Lei nº 16.215/96), assegurando na LOA (Lei Orçamentária Anual) os recursos para os projetos culturais aprovados;
- Fomento às Artes Cênicas - Realizar, anualmente, o Prêmio de Fomento às Artes Cênicas, contemplando cinco projetos para cada categoria: teatro, dança, circo e ópera;
- Desenvolver uma política de valorização dos monumentos e espaços públicos do Centro Histórico do Recife (bairros do Recife, Santo Antonio, São José e Boa Vista), que integre o patrimônio material e imaterial, onde suas ruas, praças e pátios sejam utilizados, no dia-a-dia, como palco para diversas manifestações culturais e artísticas e, as Secretarias de Cultura e de Turismo promovam, conjuntamente, um circuito de visitação aos monumentos históricos dos nove Núcleos do Território Recife do Complexo Turístico Cultural Recife/Olinda, com guias de turismo formados por historiadores e que dominem, no mínimo, os idiomas inglês e espanhol;
- Estruturar e implementar o Circuito do Turismo Cultural do Recife, numa ação conjunta das Secretarias de Cultura e de Turismo, tendo como ponto de referência central (conforme previsto no Prodetur) o Portal do Turismo Metropolitano, instalado no Museu da Cidade do Recife. O Portal será conectado a outros terminais instalados em diversos pontos da cidade, como os equipamentosâncora dos Núcleos do Complexo Turístico Cultural Recife/Olinda e as Refinarias Multiculturais. O Portal deve informar os visitantes, além da programação cultural da cidade, os diversos roteiros turísticos disponíveis: histórico, religioso, gastronômico, cultura afro-brasileira, manifestações populares, arquitetura colonial, arquitetura contemporânea, artes cênicas, moda, artesanato, entre outros;
- Trabalhar a política cultural de forma transversal, integrada com as políticas de educação, esporte, saúde, meio ambiente, turismo, segurança pública, desenvolvimento econômico e social. Promover seminários e debates para integração do setor público e da iniciativa privada destas áreas e traçar, a partir destes encontros, metas para fortalecimento da política de cultura do Município;
- Festival Recife do Teatro Nacional - Consolidar o evento no plano nacional e, a médio prazo, transformá-lo num festival internacional, fortalecendo o Recife como um importante pólo das artes cênicas. Reforçar o compromisso da municipalidade com uma política cultural voltada para o desenvolvimento das artes cênicas locais – incentivando, apoiando e fomentando a produção; criando mecanismos apropriados ao intercâmbio e à projeção dos seus criadores; formando público e promovendo a geração de renda;
- Festival Internacional de Dança do Recife - Consolidar o evento como um dos mais importantes do país, qualificando a produção local e ampliando a participação de companhias internacionais. Promover a apresentação de espetáculos em teatros e na rua, no centro e nas diversas regiões da cidade; trabalhar a intersecção da dança com as artes visuais através da realização de cursos de vídeodança, dança contemporânea e dança educação, noites performáticas, espetáculos e mostras de vídeo e dança;
- Cuidar com a mesma atenção de todos os equipamentos culturais do município, tanto das suas estruturas físicas quanto da implementação de uma programação que contemple as mais diversas áreas e manifestações culturais da cidade.
Até!
Viviane Bezerra
segunda-feira, março 16
Hóspede da semana :: Bárbara Cristina
Crônica do ônibus sem destino
Encontro-me sentada no último assento, do lado esquerdo, do ônibus Rio Doce CDU. Encosto a cabeça no vidro frio da janela, enquanto, do outro lado, a chuva cai em garoa fina, bem fina. Tão fina que se estivesse fora não a sentiria a me molhar. Em dias comuns, onde o espanto e a admiração são a última escolha sã. Sinto-me normal. Acompanhada de uma normalidade fora de si! Estúpida conformidade entranhada no homem de agora. De repente – sem querer plagiar o Vinícius, mas… – não mais que de repente, entra um sujeito esquisito a princípio. Entre longos e apressados “cagoetes”, sorri nervoso e grita em ânsia e agonia: – Salvem o poeta! – E, continuando o homem, rugia em alegria e tristeza descomedida: Salvem o poeta! – De certo ninguém entendia nada. Ele continuava a nos olhar a espera não sei de que. Algo como uma lepra enfurecida contagiava a todos com a mesma curiosidade do louco: Todos queriam saber! Sem nem saber “o que” querer, cada um que desejasse mais. Cada qual disfarçasse a vontade insana pela pergunta ideal: O que esperas? – Todos aqueles pobres de espírito clamavam dentro de si. Sem que alguém notasse a inquietude retornara ao “lar, doce lar”. E, aquela voz agonizante – intrínseca à multidão –se repetia em uníssono para ilusão geral: o que esperas louco homem? Anda, fala logo, não nos constrangeis mais! – Humilhados, esperneavam mentalmente: Deixa-nos em paz, louco homem parte de nós! – e como se nada pudesse ser feito para mudar tal situação, um silêncio consolou a idiota multidão. Idiota multidão! Como se estivessem, todos os passageiros, lá no fundo, do lado esquerdo, sinto uma imensa falta de ar. Minha respiração ofegante me confunde com um velhote a subir a Ladeira da Misericórdia. Carácolas, esse ônibus não chega a lugar algum ou chega a lugar nenhum! Apenas sinto: meu destino é o nada! De volta ao mundo irreal… O homem barbudo grita ao pé do ouvido – que sai a correr, sem querer ouvir – Levanta-te garota! Salve o poeta! Vamos, levanta-te! Desconcertada com a inconveniente situação, levanto-me e vejo que me perdi em lugar estranho! Onde estou? Pergunto ao homem enquanto o xingo em pensamento: velho barbudo! – Você está no terminal da integração de Rio Doce CDU.
Bárbara Cristina
eusoubarbara@gmail.com
Hóspede da semana :: Luiz Felipe Botelho
O hóspede da semana no blog da Trupe é Luiz Felipe Botelho.
LFB é dramaturgo, mestre em Artes Cênicas (2007, UFBA), arquiteto (1983, UFPE), ator (1991, CFA/UFPE) e diretor de teatro. Trabalha desde 1993 na Massangana Multimídia Produções (FUNDAJ/MEC), onde cria roteiros e dirige séries e documentários para TVs educativas. No teatro, escreveu 28 peças – 26 já encenadas, 5 premiadas e 6 publicadas – muitas delas contendo abordagens alegóricas e releituras de antigos mitos. Seus trabalhos mais recentes são: o livro O jogo do ilimitado (2007, SESC) baseado no conteúdo de sua homônima dissertação de mestrado sobre flexibilização espaço-temporal na dramaturgia; e os documentários: A essência e o número (2009, inédito), uma introdução à Economia da Cultura; Quando as garagens virarem teatros (2008), sobre o trabalho de formação e difusão teatral feito pelo casal Argemiro Pascoal e Arary Marrocos na cidade de Caruaru (PE) e Lições de um palco sem fim (2008), sobre as várias possibilidades de contribuição do teatro na construção da cidadania. Atualmente organiza a criação de dois grupos de estudos de artes cênicas na FUNDAJ, um sobre dramaturgia e outro sobre interpretação.
Ajude-nos a divulgar esta Rede e boa visita!
Sobre o texto
É comum que um autor se depare com idéias divertidas e interessantes que nem sempre justificam uma peça. Quando me vejo nessa situação, aproveito para brincar e exercitar aproveitando essas idéias. Fiz vários estudos nessas condições, quase todos inéditos. É o caso deste “Baseado em fatos anormais”, escrito em julho de 2002 e parcialmente inspirado numa situação real. Nele exploro o formato do monólogo e exercito a fluência narrativa de uma personagem (mulher comum, classe média, meia idade) vivendo uma situação absurda mas não totalmente improvável, além de lidar com o ritmo e a possibilidade de criação de climas num tempo de comédia.
Baseado em fatos anormais
Luiz Felipe Botelho
www.liperama.blogspot.com
Ah, se eu tivesse um pênis! Nunca mais ia precisar de barreirinha para fazer xixi na rua. Mijar de cócoras? Nunca mais. Sabiam que uma vez fomos parar num hospital por causa de um xixi na beira de uma estrada? Foi. Estávamos viajando eu e o Rodrigo, meu marido. A certa altura ele parou o carro no acostamento pra gente urinar e eu fui logo entrando um pouco no mato, procurando um cantinho mais reservado, pra mim. Além de demorar para achar um lugar, eu estava usando um jeans apertado, horrível de tirar. Quando terminei de baixar a calça, vi Rodrigo todo lampeiro, já fechando o zíper, juntinho do carro. Bateu-me uma inveja. Me senti tão humilhada. Sempre achei injusto ter que me esconder para fazer a mesma coisa que os homens fazem ali, na maior, todo mundo vendo. Nem vi que tinha me acocorado justo em cima de um pé de urtiga. Pegou tudo aqui embaixo. Quando senti a coceira, entendi logo o que estava acontecendo. Mas, pânico só piora as coisas. Fui tentar me levantar e caí sentada numa touceira de mato seco. Não bastou a agonia da vontade de me coçar como uma louca, ainda fiquei com os pentelhos cheios de capim e carrapichos. Acham muito absurdo? Escutem o resto. E podem rir, se quiserem. É agora que o hospital vai entrar na história, mas, garanto que vocês não imaginam como.
E não foi porque a coceira piorou. Eu tinha pomada na frasqueira. Passei e aliviou. O problema foi Rodrigo. Quando me viu sair do mato me coçando, com a periquita parecendo uma guirlanda natalina, ele teve um tamanho ataque de riso que começou a passar mal. Não sei o que ele viu de mais, mas ficou rindo de se acabar. Rindo, sufocando e só tinha eu para ajudar. Tive que levá-lo para o hospital. Nua da cintura para baixo. Não deu para me vestir. Não consegui tirar os carrapichos. Sabem o que é carrapicho, não sabem? Já tentaram tirar carrapichos dos pentelhos? Não? Então imaginem. Pois é. Não é coisa que se faça assim, rapidinho. E eu tinha uma emergência. Ajudei meu marido a entrar no carro e me sentei toda torta no assento do motorista , com metade da bunda fora da poltrona, sem conseguir fechar as pernas direito. Rodrigo do meu lado, chorando de rir, morrendo sufocado. E eu lá, toda torta, afundada na poltrona, dirigindo quase nua pelas estradas do sertão de Pernambuco, com uma calça jeans apoiada no colo só para disfarçar.
Enfim, cheguei à primeira cidade que apareceu. Alívio? Nenhum. Parecia que o povo percebia de longe que havia alguma coisa errada no nosso carro. Quando eu perguntava “onde é o hospital”, a pessoa, ao invés de responder de longe, lá no canto dela, se aproximava e vinha para bem junto da minha janela. Eu tinha que deixar o vidro meio fechado, senão enfiavam cabeça no carro para falar comigo. Mesmo assim, elas viam muito bem o que tinha lá dentro, não é? Um homem semi desmaiado e uma mulher dirigindo torta, com as pernas à mostra, as coxas escancaradas e uma calça comprida no colo. As pessoas viam aquilo e ficavam com uma expressão cínica, de sacanagem, feito uma gozação, sei lá, olhando pra mim. Eu respirava fundo e devolvia o cinismo: “muito obrigada”.
Quando chegamos no hospital, tiraram Rodrigo do carro mas eu não desci. Preenchi a ficha lá mesmo, sentadinha, atrás do volante. Ai, foi péssimo, porque chegou um pessoal da administração todo gentil, querendo abrir a minha porta, “desça minha senhora, desça, venha preencher isso aqui fora, tomar uma água, um café” e eu segurando a porta “não quero, obrigada, não vou descer, não vou descer, EU NÃO VOU DESCER!!!”. E não desci. Eles ficaram se olhando, a cara feia: “deixem ela aí. Deixem essa doida aí”. Vocês acham que eu devia ter falado a verdade? Só havia homens do lado de fora. Não vi uma enfermeira. Eu até gritei, com o vidro fechado: “Chamem uma mulher! Não tem enfermeira aqui não?” Eles se entreolharam, balançaram a cabeça dizendo que não e eu ouvi um dizer pro outro “é sapatão, eheheheh”. Pense num inferno.
A todo instante chegava gente tentando me convencer a descer do carro. Teve uma hora que a calça que estava no meu colo escorregou justamente quando um menino me olhou da janela do passageiro. Ele viu tudo, óbvio, e saiu aos gritos, na maior alegria: “eu vi a priquita dela! a priquita da mulher é toda enfeitada, eheheheh ahahahah”. Olha, a vontade que eu tive era de sumir! Depois de matar o menino, evidentemente.
Quando finalmente preenchi a ficha e paguei a caução, eu disse pro homem da portaria: “vou ali e volto já. Tome conta do meu marido”. Saí com o carro, procurei um lugar deserto, me livrei dos carrapichos e... (como se ouvisse uma pergunta) o que? Como me livrei dos carrapichos? Com uma tesourinha, claro. Pensaram que eu ia tirar um por um, era? Deus me livre. Além do que até que as coisas estavam precisando ser aparadas mesmo. (voltando ao tom da narrativa) Bom, abri minha mala, botei um vestido e voltei para o hospital.
E não terminou aí! Lembram daquele menino? O que me viu no carro? O peste deve ter contado para todo mundo que me viu nua, porque tinha um monte de gente na frente do hospital acenando para mim e dando aqueles sorrisinhos. Nada de cochichos. Falavam alto, como se eu fosse alguma celebridade: “Lá vai ela, olha. Aquela mulher que eu te falei. A saboeira da priquita enfeitada. Eheheheh ahahahaha uhuhuhuhuh”. No começo eu ouvia e fazia de conta que não era comigo. Mas não deu para ignorar. Até que chegou uma menina e disse assim: “dona saboeira, por favor, pode dar um autógrafo pra mim?”. Eu dei. Para que? Foi o caos. Logo tiveram que fazer uma fila. Disseram que tinha saído no rádio e vieram me ver. E não parava de chegar gente. Chegou a um ponto que o hospital teve que chamar a polícia para conter a multidão. Pareciam uns loucos, gritando: “Saboeira, tcham, tcham, tcham, saboeira! Queremos a pri-qui-ta! Cadê a priquita enfeitada? Êêêêê! Mostra! Mostra! Mostra!” Dois dias vivendo isso. Dois longos dias. Foi o tempo do irmão de Rodrigo chegar e levá-lo para casa. É, também teve isso. Eu não podia levar meu marido de volta. Toda vez que Rodrigo olhava para mim, tinha outro ataque de riso. Precisou o irmão dele ir até lá buscá-lo. Eu fiquei lá, dormindo na sala de espera, porque não podia ficar com ele. Esperei sozinha durante aqueles os dois dias e sozinha voltei para casa.
Rodrigo passou um mês sem poder olhar para mim. Tomou remédio, fez terapia. Isso quase acabou com nosso casamento. Só não nos separamos porque a gente se virava bem na cama e não queria abrir mão disso por causa de um risinho a toa... Não... não foi só por isso, não. Justiça seja feita e verdade seja dita: sempre amei aquele porra e sei que ele me adora. Conto essa história porque foi foda, mesmo. Mas, fora esses dois dias infernais, só tenho lembranças boas da minha vida com ele. Coitado. Ainda hoje, se ele se lembrar disso, com certeza vai cair na gargalhada. Eu não. Dizem que, depois que essas coisas passam, a gente acha graça, não é? Isso não funciona comigo. Pelo menos neste caso. Há pouco tempo eu soube que virei uma lenda urbana naquela cidade onde tudo aconteceu. Lá, atualmente, quando as crianças se comportam mal, as mães dizem que vão chamar a “saboeira-da-priquita-enfeitada” para pegar elas. Como é que eu posso achar graça nisso?







