sexta-feira, outubro 22

Poesia Completa - Volume 1 - Parte 2

"Sonhei que circundava penhascos
deslizando num relance de abismos
via-láctea escaldante de estrelas
num romance de Leviatãs e oceanos
Barco solto em tapete esverdeado
que faz ondas e espumas de algodão
branco leite de onde sai o arco-íris
E esbarrei numa estrela pequenina
guardiã de meus sonhos mascarados
afogado em instantes que deslizam
no infinito escarlate do tempo
que a tudo acabou sem deixar ecos."

"Levo alguma prosa sob o manto
para descortinar sobre a Jerusalém de pedra
Pelas frestas das muralhas
derramarei óleos aromáticos
espalharei um pranto
Um choro ocre, levemente amadeirado
daqueles que sentem a atração da terra
e deitam junto às flores acossadas
entre a construção impiedosa
e os passantes."

"Quando inventaram a fila
a lua ficou enrugada
e correu pelo inferno
um sorriso malicioso
de um demoniozinho
criança de Arrabal...
e era só o começo!"

"É preciso achar as palavras
certas, setas
para não magoar
a sensibilidade contemporânea
dos performers
repetentes de décadas passadas
revolucionários de ontem
de manhã
e de ressacas."

"Quem quase acerta
erra
quem quase amou
dançou
quem quase peca
enche
a paciência do santo
que não te perdoou."

"Aquilo que não é visto
não existe?
Como o Saara
o maior inexistente.
Os africanos, os sentimentos
e a ex-Iugoslávia
O que é um ex-sentimento
ex-país, ex-palavra?
Quem já viu todo o deserto,
a existência?"

"São formosos os teus pés de rachadura
como escultura divinatória que caminha
Os teus lábios guardam um paladar desfeito
e já não se ouve tua voz melodiosa
Tua estatura envergou-se com o tempo
e o que era alto, se arrasta no caminho
Os teus pés se apoiam sobre a cinza
em que teu ventre se desfez
neste sendero.
Em teu rosto nenhum desespero...
Para quem passa distraído
estás perdida
mas eu que te guardei no escondido
olho para o alto e vejo
a fênix que vôa!"

eliasmouret

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