segunda-feira, agosto 9

Ampliação e Abertura dos Teatros em Pernambuco

Hoje acordei pensando em muitas coisas...
O público que desaparece dos teatros de Pernambuco
Os teatros fechados...
Os teatros que funcionam de forma precária
Os constantes festivais...
Resolvi tentar compreender um pouco mais das relações possíveis entre estes fenômenos, apontar algumas saídas e quem sabe abrir uma discussâo sobre o uso dos recursos por estas bandas.
A questão do público é interessante.
Alguns se inclinam para uma visão psicologizante do problema ou de cunho sociológico, onde o fazer artístico deve ser repensado... também surgem as questões de segurança e quebra de paradigmas sociais como determinantes para a apreciação do teatro.
Embora não descarte estas questões, acredito que as mesmas não são o principal motivo do afastamento do público teatral.
No meu modo de ver a principal causa é estruturante e se desdobra em alguns fatores: programação irregular e intermitente; a administração dos espaços existentes com sua infra-estrutura precária; uma completa ausência de planejamento de longo prazo; mídia inexistente para os teatros que estão abertos; teatros fechados e uma concentração das casas de espetáculos em um mesmo “eixo” da cidade.
É claro para qualquer um que trabalhe com teatro em Pernambuco que nossos espaços culturais, não conseguem oferecer boas condições de trabalho. Funcionários mal treinados e desmotivados, administradores sem recursos e sem apoio, ausência de programação permanente e de qualidade são coisas que encontramos quase sempre.
Até que ponto uma programação regular pode trazer público para o teatro?
Em minhas andanças pelo “eixo” Rio-Sampa, nestes espaços culturais( não apenas teatrais) como Centro Cultural Banco do Brasil (RJ e SP) Oi Futuro (RJ) Galeria Olido (SP) SESC (SP) e Outros, pude observar claramente que os espaços culturais formam um público cativo partindo de uma programação de qualidade.
É claro que podemos argumentar que estes espaços dispõem de maiores recursos. Sem dúvida, mas quem frequenta estes lugares não vai ali pensando que o Banco do Brasil tem mais dinheiro que a prefeitura do Recife, ele vai por saber que naquele dia específico alguma coisa boa (quase sempre, mas não sempre) vai estar acontecendo e que ele não corre o risco de dar com a cara na porta de um teatro fechado, coisa comum em nossa cidade.
É imprescindível para a formação de público que os espaços tenham alguma identidade e uma programação regular... não se consegue formar público fazendo um mês de apresentações de teatro para a infância e juventude as domingos, por exemplo e passando os dos meses seguintes com o teatro fechado nestes mesmos domingos... nunca vi funcionar em lugar algum.
O raciocínio é simples: Imagine que vc compra pão numa padaria que vc nunca sabe se vai fazer ou não o pão naquele dia, vc não sabe o tipo de produto que oferece, nem mesmo se vai abrir.
Vc vai virar cliente?
Outro fator importante e que nós não devemos deixar de observar, é que manter teatros fechados durante anos é uma péssima propaganda para o teatro. Ou alguém pensou que estas reformas eternas, estes teatros que só abrem esporadicamente, os que nunca abrem, não tem um efeito negativo no público?
Vamos lá que hj estou profundamente didático: O cidadão sai de casa e encontra o mercado que ele frequenta (uma dessas redes, por exemplo) fechado... vai para outro bairro e surpresa... fechado. Num terceiro bairro pasmem. Fechado!
O que ele vai pensar? Faliu! Os negócios não vão bem! Viu meu filho, teatro não tem futuro, quando vc vai arranjar um emprego?
Portanto a minha defesa é da abertura de todos os espaços cênicos da cidade, contratação de pessoal qualificado e motivado para administrar os mesmos ( com grana lógico) e abertura de outros teatros na cidade e em outras cidades.
Já defendi esta proposta aqui em outro momento, mas vou tentar explicitar e ligar as pontas com os festivais citados acima.
Acabou o Festival de Inverno, foi o vigésimo. Para o festival diversas estruturas são contratadas, lonas, palcos, iluminação sonorização e tudo o mais... ou seja dinheiro. Mas estas estruturas que são contratadas todo ano, não ficam na cidade... elas poderiam, sabia? Há equipamentos ( teatros, tendas ,espaços culturais) de grande durabilidade que poderiam substituir estas estruturas que só funcionam durante os eventos.
As estruturas permanentes ficariam na cidade onde o festival é realizado, funcionando como um espaço cultural ... uma rede estadual de espaços culturais.
Claro que as pessoas que alugam não gostariam, mas agradar a todos ainda não é possível.
O Exemplo de Garanhuns e do Festival de Inverno é apenas o mais conhecido por mim, sou da cidade e comecei meu trabalho artístico lá. É incrível ver por exemplo toda aquela iluminação, som, equipamentos alugados durante vinte anos de festival e constatar que o Centro Cultural da Cidade não tem condições técnicas de receber espetáculos ( falta equipamento de luz, o som não é bom e etc). Não seria mais fácil comprar? Claro que é mais caro no primeiro momento, mas quem só pensa no primeiro momento, não passa da orelha do livro.
O benefício para as cidades seria imenso se as estruturas ficassem funcionando.
Estas mesmas estruturas podem formar uma rede de teatros nos bairros da região metropolitana. Custo inicial maior que vai sendo amortecido com o passar dos anos.
E voltamos para o público...
Uma rede de teatros nos bairros da Região Metropolitana (pra começar) tiraria o teatro do “Eixo” Recife Antigo-Boa Vista e levaria o teatro para outras áreas da cidade, abrindo a possibilidade de conquistar e conhecer outros públicos, desde que mantida uma programação regular, quero insistir.
Vc pode achar estranho esta mistura de assuntos, os festivais, público, teatros fechados... mas não há estranhamento.
Não sou contra os festivais, apenas acredito que há festivais e festivais e que os recursos não deveriam ser passados para cidades que não tem secretaria de cultura independente(nada de secretaria de educação, turismo, esporte ou coisa do gênero) e não tem um plano de políticas públicas para a cultura. Gastar dinheiro sem construir uma infra-estrutura permanente para a cultura é uma visão de curtíssimo prazo. Colocar dinheiro na mão de municípios que também não apoiam os artistas locais é indecente. Se o dinheiro é pouco é melhor usar bem.
Penso que publico só vem com valorização do artista e do espaço cultural.
Imagine vc artista que acabou de montar seu espetáculo com dinheiro recebido através do Funcultura ou da Funarte, se depois de montado, vc pudesse circular com seu espetáculo por esta rede de espaços culturais? Sim, apresentando nos bairros da região metropolitana e nas cidades do interior?
Estas estruturas poderiam ser compradas pelo estado ou governo federal e a manutenção ficar em parceria, estado-municipio e iniciativa privada. Pra finalizar coloco os sites de um teatro móvel de Sampa e de uma empresa em Portugal, mas que vende para o Brasil, que oferece estruturas que podem ser usadas como espaço cultural...
Hoje acordei pensando em muitas coisas e outras mais...


elias mouret

http://engenhoteatral.wordpress.com/

http://www.domeworld.pt/

2 comentários:

oócio disse...

Elias,
Estou exatamente na condição de espectador e posso dizer que seus argumentos estão corretos. Dificilmente conseguimos, o público, saber se vamos encontrar algo para ver em um ambiente seguro e confortável, por fora e por dentro. Eu acrescentaria: não sei quando vou me deparar com uma boa peça (títulos novos amedrontam quando não conhecemos os atores) e com atores e autores que compensem. O sucesso da Trupe do Barulho se deve por dois detalhes, para mim. Um, mencionado por você: a constância (ela sempre está preparando temporadas e o humor é uniforme, o escracho),e o público sabe quem são os atores e elege seus prediletos(mesmo que não conheçam seus nomes, me dizem: vai ter aquele cara do Chupa-chupa show, deve ser massa também). No mais, torço muito pela revitalização das salas e dos demais pontos sobre os quais você comentou.
Adilson Jardim

Marco Bonachela disse...

Bam amigo,

Impressionante o quanto rodamos, nos encontramos, nos reencontramos e acabamos conversando sobre os mesmos problemas... e o pior: os mesmos gestores públicos, responsáveis SIM (mas não exclusivamente) por esses quadros, continuando também nos mesmos cargos e espaços.

Do teu texto, quero ressaltar e complementar duas observações.

A primeira é quando você fala dos funcionários e da aciduidade da programação dos espaços. Não existiria outra expressão além de estarrecedor, chegar a um teatro numa terça-feira solicitando uma pauta de digamos... ensaios por um mês para a terças e quintas e receber uma INSTÂNTANEA resposta negativa quando, ao sair da "tentativa de reunião", se verifica que NADA está acontecendo no local no mesmo dia da semana que você pleiteando.

Se você é um funcionário público não concursado, ou seja, sem uma estabilidade financeira e empregatícia, e recebe um salário ruim, qual é o interesse que você possui de que ocorram atividades no equipamento cultural no qual você atua? Da trabalho... os artistas vão requisitar qualquer coisa... enfim, melhor dizer que não há possibilidade de "encaixe" na programação! É mais fácil e mais prático! Se continua nas reticências...

O segundo ponto desse meu comentário é sobre as idéias que você apresenta sobre os Festivais.

Acho excelente sua proposição pela aquisição dos materiais infra-estruturais e de que os mesmos permanecem nas cidades.

Se se ouve um contra-argumento institucional calcado na ausência de verbas para tal ação estruturante, lanço uma outra questão que não mudaria o formato atualmente utilizado: por que não se contrata pessoas ou se aluga materiais dos produtores culturais de cada localidade?

Vamos continuar no exemplo do Festival de Garanhuns: invés de contratar uma equipe de profissionais recifenses para a realização do registro audiovisual do evento, contrate um profissional - no mínimo - da macro-região do Agreste! (é só um exemplo pessoal, até porque, por conhecer os profissionais que realizaram tal registro, sei da competência e do endereço de boa parte).

Vai alugar uma câmera ou um equipamento de som? Por que não o faz de um Ponto de Cultura da região, que tem uma verba reservada e paga pelo Governo para a aquisição de tais materiais?

Enfim, por que não estimular o tão professado "ciclo virtuoso" de estruturação da cadeia produtiva da cultura com idéias deste tipo, dada que em muitas circunstâncias ela poderia ser uma opção?

Por medo?

Por falta de preparo?

Do que se trata?

Abração companheiro!