quinta-feira, agosto 27

Sobre Arte e Economia ou Sobre Meninos e Lobos*

A arte tem alguma importância econômica?
É possível desenvolver uma economia da cultura por estas bandas?

A economia da cultura começa a ser estudada timidamente em nosso país e entre os diversos questionamentos que desperta esta o de definir com alguma clareza que tipo de atividade ela comporta. Há quem coloque como economia da cultura toda e qualquer atividade onde a criação intelectual esteja presente, sem necessariamente ser considerado artístico o produto daí resultante. Outros acreditam que só aquilo que convencionalmente chamamos arte, pertence realmente ao universo citado. E assim em alguns lugares é vista como economia da criatividade, em outros do intelecto, etc. São questões de definições que embora importantes, não apresentarei neste momento. Pretendo propor alguns questionamentos sobre a situação em nosso estado e iniciar um diálogo sobre o assunto.
Certamente o produto cultural não é uma mercadoria como qualquer outra, mas será que a relação de oferta e procura é muito diferente da coca-cola? O valor da obra cultural não é apenas monetário, porém é também desta espécie. Algumas pessoas detestam ver em uma discussão sobre bens culturais, termos como valor, mercadoria, produto, acham que isto ofende certa pureza original, um ‘valor’ intrínseco que a obra cultural carrega e que a mesma não deve se misturar com a baixeza econômica dos homens, com seu capitalismo sórdido. É como culpar o leiteiro pela falta do pão. Este tipo de raciocínio pode ser facilmente usado contra os artistas: Afinal, porque investir em cinema, teatro, música, se a escola é ruim e a saúde esta na UTI? Pensando assim podemos concluir que o investimento em cultura é um desperdício do dinheiro público, pois falta muito a ser feito em outras áreas. A questão é que da mesma maneira que não é o investimento em cultura que retira dinheiro de outras áreas, também não é a discussão econômica que retirará da cultura-arte, seu valor essencial. Não há uma relação de causalidade absoluta.
O valor essencial da cultura não se perde quando a mesma dialoga com preceitos da economia de mercado, ou outros modelos econômicos que se apresentem. A cultura tem sido usada para muitas coisas, inclusive para propagar e manter a influência de uma nação sobre outras. Não defendo bairrismos tolos ou imperialismos culturais, mas ingenuidade talvez seja ainda pior. Normalmente são os bem arranjados que querem que artistas e outros criadores vivam de maneira sofrida, mendigando patrocínio e morrendo poeticamente de tuberculose.
Pernambuco é visto como um lugar cheio de artistas. Aqui todo mundo é poeta, atriz, estilista, cineasta. Alguns já possuem um grupinho, ainda tímido, de admiradores que convivem etilicamente com os cáusticos, os insatisfeitos e os novos críticos. E pagar a conta da Celpe eles conseguem? É preciso refletir sobre que tipo de economia cultural queremos desenvolver no estado. Um modelo mais justo, com descentralização, boa remuneração e cadeias produtivas organizadas e fortes, ou um modelo canavieiro, com alguns usineiros culturais e uma massa que recebe salário mínimo? Acredito na primeira alternativa e penso que podemos realizá-la com reflexão e trabalho.
Este texto não tem a pretensão de apresentar fórmulas, alguns conceitos podem inclusive parecer vagos, temos muito que questionar. Como citei anteriormente, o que entra na economia da cultura? O designer, o software, a dança? Temos um cinema muito elogiado, e a distribuição? Quantos ingressos teríamos que vender para cobrir os custos de uma peça ou de uma exposição? Quanto cobraríamos? Sim, é preciso mergulhar na teoria econômica, entender as preferências do consumidor, pesquisar a capacidade econômica das comunidades, definir o papel do estado como indutor ou não da cultura como atividade econômica. O mesmo estado que durante séculos apoiou o setor canavieiro, setor que ocupou as melhores terras, pagou os piores salários e nos legou os maiores problemas sociais.
A cultura e a economia precisam fazer um diálogo de teorias, de números, de estatísticas. Em nossa busca teremos que descobrir qual ou quais os melhores modelos de organização para nós. Seremos todos, micro-empresas, abriremos associações, institutos? Devemos pensar na nossa organização jurídica, política, em como nos relacionaremos uns com os outros e com a sociedade. Algumas infantilidades, como briga de gerações, certamente só nos trarão prejuízos. Em compensação assessoria competente e dados atualizados sobre as cadeias produtivas podem nos ajudar bastante. Não devemos ter medo deste encontro, quem sabe não conseguimos transformar Pernambuco num estado conhecido por uma economia cultural pujante onde o barqueiro do Rio Capibaribe ancore a cabeça no porto digital.

Elias Mouret participa da Trupe de Copas é iluminador e diretor de teatro e eventualmente pode ser encontrado na rua da moeda ou no pagode do Didi.

* Texto publicado na Revista Eita!

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