segunda-feira, junho 8

Hóspede da Trupe :: Samarone Lima

A Trupe de Copas retoma seu projeto hóspede recebendo o "escritor das coisas mínimas e desnecessárias", jornalista e professor Samarone Lima.
É com grande alegria que recebemos no blog da Trupe o material de tanta gente bacana que está envolvida com arte.
Agradecemos e prometemos cuidar bem de tudo que nos for enviado.
... e recomeçar com o Samarone é um prazer.

Boa visita!


Não se aproxime demais

Não se aproxime demais
que estou com data de validade
vencida

Que estou com a nacionalidade
perdida

Que estou com as malas
vazias

Não se aproxime demais
que ao menor toque
revido

Que ao menor sussurro
meu grito

Recife, 21.4.09


Onde cabe o amor


Cabe num pires o amor
Não na xícara, no açucar,
na colherinha.

Cabe num pires o amor.

No pires que guarda as sobras,
que fica com as manchas
que aguenta pancadas em silêncio.

Cabe num pires o amor.

No pires que guarda as sobras,
as manchas
que aguarda em silêncio.

Cabo, 11.02.2009



Diario Poético II

Onde erramos, minha mãe, pergunto
E ela sorri. Tenha calma, meu filho
que tudo vai dar certo.

Sim, todos somos feitos de frases feitas
desenhadas pelos que chegaram antes

Lapidamos os defeitos
como quem limpa o disco
com um pano sujo
arranhando o melhor trecho

Belo, portanto, até que pereça.


Privilégio das ausências

Gasto os passos da vida
em caminhos que sequer existem
Sigo ombro a ombro
com meus camaradas que já se foram
Na coleira, levo meu cão sem nome
que urina nas flores

Volto na mesma estrada
escrevo meu nome nas paredes de vidro
batizo as fontes, grutas
saudades
com palavras que invento para esquecer

Vivo assim, neste privilégio das ausências

Tenho um encontro marcado
a cada instante
com o daqui a pouco

E usamos relógios sem ponteiros.

Brasilia, maio de 2008.


Roubos, coleções


Roubo girassóis
Coleciono quadros de Van Gogh
Estrelas, cadernos empoeirados
Fotos de famílias extintas

Coleciono sonhos, sudários, fagulhas, tempestades
Declarações de amor nunca ditas

Roubo telepatias
Recados mudos
Bilhetes molhados
Roubo mundos

Coleciono peixes nunca pescados
Barcos jamais singrados
Coisa que nunca vi

Roubo a água dos rios que secaram
Tuas lágrimas
Coleciono jasmins dentro de tuas palavras
Roubo tua saliva
Teus gritos, teu desespero
Tuas mágoas

Coleciono pedaços de minha infância
Do tamanho de um dente de leite
Homens iguais na penumbra
Desejos nunca realizados

Roubo conchas e escuto o mar
Roubo silêncios
E os implanto em meu peito
Roubo cartas que nunca chegaram
E as leio, numa fúria sem palavras

Coleciono dias
Um dentro do outro
Oito notas musicais
Plantas dentro dos meus bolsos
No lugar das chaves

Roubo vasos, no vazio do meu jardim
E o batizo meu lugar de nada

Coleciono silêncios
Palavras ao sol
Tudo o que nunca verei
Teu coração que pulsa
No meu ventrículo esquerdo

Roubo poemas para vender na feira
Aos sábados
Para trocar no ferro-velho
Aos domingos

Dois poemas por um quilo de lembranças
Três poemas por uma mesa sem uma das pernas
Quatro poemas por uma placa de rua
Que não existe sequer na lembrança


Baía Blanca, Argentina, março de 2000.


Para quem deseja conhecer mais o Samarone:
http://www.queremospoemas.blogspot.com
www.estuario.com.br

Um comentário:

Marco Bonachela disse...

As vezes me pego tão embrutecido pelo esquema trabalho-casa-trabalho (que inevitavelmente nossa sociedade impõe) e esqueço o quanto é gratificante e libertador enxergar as lacunas poéticas que o cotiano possibilita.
Obrigado aos poetas!
Belos textos Samarone.