terça-feira, março 22

Pensei em Recife.

Ontem vi uma propaganda sobre um super condomínio de luxo que estão construindo em Recife, mais um desses feitos para o pessoal que tem grana. Fiquei com a impressão que muitos parecem viver num mundo paralelo, num espaço artificial, construído "para você e sua família realizar o sonho de ser feliz". São tantos slogans para vender a "casa dos seus sonhos", que me pergunto onde perdemos a mão e o bom senso em questões como igualdade social na nossa cidade?

Você conta com 4 suítes dentro de casa, área de lazer com piscina (para adultos e crianças), salão de festa, quadra de futebol, basquete e tênis, pista de skate, 3 garagens, academia, sauna, mini supermercado e píer. Dali, você pega seu carro blindado e sai para seu restaurante predileto, deixa o carro com o manobrista (claro!), e faz sua refeição sem nenhum incomodo. Você também pode ir ao shopping e fazer compras (esqueça a C&A e a Riachuelo, por Deus!!) e depois retornar ao seu lar. Parece o Show de Truman!
Sem falar em todo o investimento na segurança do patrimônio. São câmeras e mais câmeras, cercas elétricas, seguranças armados, portaria blindada, e a polícia parece estar sempre mais a disposição para os do Maurício de Nassau e Duarte Coelho do que para o pessoal do Alto Santa Terezinha.
Me pergunto o que na verdade estamos protegendo enquanto sociedade?

Puxando bem a discussão para o Recife, fico pensando se alguns recifenses percebem a cidade. Recife do alto é uma linda cidade com seus rios e pontes, e uma música ao fundo de Lenine ou de Alceu. Aqui, de baixo, quanto emparelhamos as coisas, vemos todo o tipo de miséria pelas ruas e um povo com medo de ser violentado. Os espaços públicos estão descuidados e estão sumindo, parece que a Moura Dubeux vai comprar tudo! Um cadeirante não anda pelas calçadas de Recife. O lixo está espalhado por todo o centro da cidade. O trânsito está um inferno da zona norte a zona sul. A água do Capibaribe lembra petróleo por sua cor e consistência.

Lembrei de um filme, não é nacional mas trata muito bem destas questões de segregação social que tantos conhecemos. La Zona (Zona do Crime), é um filme mexicano que mostra um pedaço do primeiro mundo envolto por favelas. Vale a pena ver. Não há inocentes. Há riqueza e há pobreza.

Pensar e sentir Recife é refletir sobre o ter e o possuir, desde o básico até o mais incrivelmente supérfluo, e a diferença disso na construção do ser humano. É importante pessoal e senhores governantes, amparar quem precisa, quem de não ter nada precisa de verdade de tudo. E precisa com qualidade.
O carnaval passou, mas o samba não é de época, né?! Então, lembrei desse do Elton de Medeiros que diz assim:
Uns com tanto
outros tantos com algum
mas a maioria sem nenhum.

Boa sorte pra nós!

Até!

Viviane Bezerra

Um comentário:

Val Lima disse...

Eu sinto não como se houvesse o medo de ser violentado, mas como se fossemos violentados todos os dias. Ontem andando pelo centro perdi a capacidade de me indignar com a sujeira, por exemplo. E senti uma profunda tristeza de morar num lugar tão sujo. Recife esta cada dia mais suja e o lixo se acumula na rua. Sem falar no trânsito, no calor, na falta de educação das pessoas, na cultura de baixa estima... são tantas as questões. E eu guardo uma imagem, pra mim a que mais representa essa desigualdade e indiferença que parece habitar a nossa cidade: ao lado das torres gêmeas, a noitinha, um grupo de pessoas distribui sopa para os tantos que não tem onde morar e nem comer e que que fazem o "desfavor" de habitar ao lado dos prédios contruídos pela Moura Dubeaux!