quarta-feira, setembro 1

O TEMPO PASSA E A GENTE NEM PERCEBE



Por Eron Villar

Todo mundo que me conhece sabe que sou um cara meio preconceituoso, nunca neguei isso! Mas esses dias me surpreendi com uma película que por várias vezes me recusei a assistir – confesso - por preconceito. O protagonista não era dos meus prediletos, o tema parecia falar de velho, outro preconceito assumido, embora esteja ficando-o também (já cheguei a acreditar que n ao passaria dos 33, eu, Cristo e Pimentel!). No afã de aumentar minha singela coleção de DVDs originais, já que estou perto dos 200, comprei O Curioso Caso de Benjamim Button. Debrucei-me sobre as informações e fui mudando de opinião: a direção era de David Fincher, (Seven e Clube da Luta, ambos com seu queridinho Brad Pitt, o protagonista em questão, mas dois filmes que aprecio bastante), e ainda Kate Blanchett no elenco, beleza e talento refletidos na segurança de seus tão citados olhos azuis.
E qual não foi a minha surpresa e ao acompanhar até o fim aquela curiosa e verossímil trama. Quantos valores podemos ver questionados na história do cara que nasce velho e vai rejuvenescendo até morrer nos braços da única mulher que amou na vida. O fluxo da vida correndo ao contrário e, ainda assim, ensinando que podemos aprender a amar e a cultivar este amor, seja qual for a condição de tempo, espaço ou situação social. Um amor que surge no olhar de duas crianças inocentes, em que uma traz impressos em seus traços o peso da idade que ainda não tem; e anos mais tarde vai descobrir aos 47 (com carinha de 18) que a aparência externa esconde a dor de uma vida plena de sensações e sentimentos que só valem a pena quando vividos, que as dificuldades enfrentadas, que cada recomeço, cada conquista pode ser efetivada sempre: “nunca é tarde pra começar de novo!” ele afirma . Benjamim Button me fez pensar em nós, em nossa geração de artistas, de amigos, de companheiros de um front cheio de incertezas e de recomeços. Sejam profissionais, sejam pessoais. Nunca é tarde para recomeçar, repito, mas isso parece se completar com a idéia de que quando amamos verdadeiramente, suas marcas nos acompanham até o fim de nossas vidas ou a o retorno de uma infância cruel e previsível, agora madura, cheia de reminiscências, ora como feridas que parecem incuráveis,ora como prazeres inesquecíveis..E quem viu o filme sabe que se aquele relógio que conta as horas para trás estivesse entre nós, realmente muitas de nossas crias voltariam para a casa, muitos de nosso filhos sairiam vivos da guerra!
Para não parecer sentimental demais, coisa que não combina com um Cafuçu Sensível, vou terminar lembrando saudosamente de uma fala da Lilith anciã de Felipe Botelho:
“O tempo passa e agente nem percebe, a gente passa e o tempo não tá nem aí...“
Evoé!

Eron Villar é Diretor, Ator e Iluminador.

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