terça-feira, janeiro 12

Empoderamento econômico e Economia da Cultura

É fácil mudar de ano... guardamos quase sempre os mesmos paradigmas.
Parece que artistas e gestores culturais estão perfeitamente conformados...
Nós podemos continuar com uma política cultural assistencialista
ou podemos repensar o caminho que temos feito até aqui.
Este pequeno texto é uma aproximação de uma outra visão...
Aqui em Pernambuco e particularmente em Recife, é comum uma crítica
exagerada quando não se é convidado para o banquete
e um bairrismo ainda maior quando estamos à mesa.
Recife é multicultural, Pernambuco é o maior e melhor...
a maior avenida em linha reta, o maior "chópin",
a maior violência contra as mulheres, a maior buraqueira
as ruas mais mal iluminadas, as calçadas mais cheias de lixo.
Já passou da hora de rejeitar toda esta cultura ufanista tola,
assim como o derrotismo do nada presta.
Estes não são os únicos caminhos...
podemos e devemos valorizar as pessoas, suas criações,
pelo mérito que carregam,
independente de serem ou não desta terra,
podemos avaliar as ações pelos seus resultados,
os gestores pela sua competência,
nós mesmos com firmeza e espírito generoso.
E quanto ao título do post?
Sem mudança de paradigmas, presos a uma atitude atrasada,
não conseguiremos ver as mudanças que vem sendo operadas no país.
É cada vez maior o número de empresas que descobrem
as classes mais pobres como consumidoras.
Há um processo de empoderamento econômico acontecendo
nas comunidades.
Será que só as pessoas que trabalham com cultura não percebem?
Nós precisamos de público para nossas exposições, peças, shows...ou não?
O público precisa ter acesso a estes bens culturais. É uma tolice achar
que as pessoas não gostam de teatro, ou de uma boa música
ou não iriam para uma exposição de arte contemporânea.
É provável que em alguns casos seja preciso desenvolver
apuro estetico para apreciar,
mas ninguém nasce com o "dom" de gostar
de Bach e outro com o "dom" de gostar de Lapada na rachada.
É a formação, o contato com a arte, com os artistas
que desenvolve nosso gosto.
As pessoas das comunidades mais pobres também devem
ter o direito da tão falada multiculturalidade.
As dívidas históricas do país, com os mais pobres,
não se referem apenas a comida.
Agora que esta população começa a conquistar algum direito
economico, vamos oferecer também os bens culturais
que estamos criando... podemos criar com eles também.
Não se trata de ir em Peixinhos e vender
uma peça de teatro a trinta reais.
Se desenvolvermos uma rede de espaços culturais nos bairros
com uma boa infra-estrutura...
cine-teatro, sala de exposições, biblioteca,
quem sabe não conquistamos público para nossos trabalhos
e não conseguimos melhorar a auto-estima da nossa gente?
Uma rede de espaços permanentes nos bairros,
além de ajudar no desenvolvimento dos mesmos
pode ser um caminho importante para escoamento
da produção cultural.
A proposta é simples.
Vamos parar com esta política clientelista de shows e mais shows
para agradar prefeituras e deputados
e vamos construir uma estrutura de escoamento permanente.
No mínimo um espaço cultural a cada cem mil habitantes.
Não um espaço qualquer, com péssima estrutura
e arquitetura de cemitério
mas, um lugar agradável, aconchegante, uma referência no bairro,
lugar de encontro, de experimentação, de economia e arte.
Não é difícil, é só fazer a conta de quanto vem sendo gasto
na política de pão e circo.
Certamente não falta dinheiro...
mas devemos pensar sobre como usá-lo.
Neste processo devemos rever claramente a gestão da cultura
atrelada a casa civil, e questionar a imensa fraqueza da
secretaria de cultura e a instrumentalização da Fundarpe
que de orgão gestor, virou orgão político.
Este fato não deve passar desapercebido... nós artistas, não podemos
continuar com um píres na mão, tendo nosso trabalho exibido
em campanhas marqueteiras do estado ( as antigas e as novas).


eliasmouret

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