segunda-feira, abril 6

Porque nem só de devaneios estéticos se vive como artista em Recife ou O que há de político nos devaneios estéticos?

Li este texto de Zig no blog do Colaborativo Permanência e acho bastante pertinente colocá-lo no blog da Trupe. Creio que o momento é positivo para as reflexões e mobilizações. Creio ser o momento para acertamos a sintonia, um bom início.

Porque nem só de devaneios estéticos se vive como artista em Recife ou O que há de político nos devaneios estéticos?

Sem deixar de reconhecer os avanços já conquistados na área teatral e de cultura no nosso município parece claro à classe teatral certa falta de sintonia entre os representantes das máquinas públicas e as reais necessidades e demandas da área.

A primeira observação a ser feita, tomando em conta o próprio Plano Municipal de Cultura atual, parte da política pública definida no mesmo para as artes cênicas. Ao utilizar como um dos principais pilares um calendário fixo de eventos, pontua-se uma política de sazonalidade. Sem desmerecer a importância deste calendário, de qualidade firmada nacional e internacionalmente, fica a questão: os profissionais do teatro mantêm-se e sobrevivem apenas com o cachê de sua participação no Festival Recife de Teatro Nacional? Aprofundando-nos neste mesmo exemplo, já encontramos problemas diversos... A existência do festival no calendário da PCR não significa, por exemplo, que todos os grupos e companhias teatrais da cidade estarão participando – uma hipótese realmente sem sentido. De que forma, portanto, podemos imaginar este tipo de ação como uma política publica? O artista que vive em Recife não é turista, ele está aqui do início ao final do ano. Ele come e paga suas contas não apenas em outubro ou novembro!

Outro ponto que se torna claro são as limitações do sistema de incentivo a cultura via isenção fiscal, o mecenato. Desde seu surgimento é notável certo desvirtuamento da função do artista a partir desta política: os grupos ou os artistas independentes devem se “auto-produzir”, criando muitas vezes esquemas hipotéticos do que são seus projetos. Dependente de subvenção, o artista põe-se refém de sua meta: deve, mesmo antes de vivenciar seu processo, definir e apresentar planos de luz, cenário, figurino ou texto (na hipótese de uma dramaturgia construída em processo) antes de sequer ter posto seu projeto em ação. Óbvio que está é a única forma que uma comissão de avaliação teria para determinar o mérito de cada proposta, mas parece que o jogo cênico começa antes mesmo da apresentação do espetáculo: eu, criador, hipotetizo o que seria meu projeto, enquanto ele, comissão, julga se atuei bem ou não nesta “cena”. Ainda nesta questão detecta-se outro problema: a dependência com o capital privado pois, de fato, são as empresas as determinadoras de qual projeto será ou não realizado em ultima instância. Várias estatísticas comprovam que parcela considerável de projetos não conseguem, mesmo com a chancela “MinC” ou “PCR” e a isenção tributária, a adesão da empresa para realização. Caberia ao capital privado a decisão em última instância do que é um produto cultural válido ou não à sociedade, tendo em vista o claro interesse mercadológico destas instituições?

A política de ocupação dos equipamentos públicos, no caso, os teatros e o único centro de formação teatral, o Apolo-Hermilo, também merece atenção. Vale ser pontuado o avanço na definição de uma licitação pública para ocupação do Teatro do Parque e do Barreto Junior como também é valida outra questão: por que razão não se assume a mesma metodologia para a ocupação dos outros equipamentos? Outro comentário comum entre a classe são os critérios de seleção dos espetáculos tendo em vista que número relevante dos projetos selecionados no primeiro edital de ocupação (2008.2) foram de profissionais envolvidos diretamente com a máquina pública (considero desnecessário citar nomes...). Faltam palcos para os grupos da cidade! Existem espaços claramente ociosos, com administradores que realmente confirmam o senso comum da indisponibilidade do funcionário público. Solicitar uma pauta na capital pernambucana é um exercício que, de pífio, torna-se por vezes ridículo.

Deixando de lado uma visão apenas “apocalíptica” do cenário teatral da cidade, devemos encontrar nesses problemas a mola propulsora da mudança. Abandonar uma política pública calcada na sazonalidade de eventos, na legitimação oriunda do capital privado e no esvaziamento dos equipamentos culturais para criarmos, num diálogo estreito com os poderes municipais, estadual e federal, uma política estruturadora para o teatro local.

Deixo o mesmo recado que Vivi: Vamos acompanhar de perto?

Não só acompanhar, mas construir outra perspectiva para o teatro da cidade?!

Marco Bonachela

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